Discografia

Edson Cordeiro tenta recuperar popularidade com Bem na Foto

Quem acompanha Edson Cordeiro nas redes sociais certamente viu nascer e crescer seu mais novo disco. Produzido por Franco Júnior, como ele fazia questão de repetir, Bem Na Foto é o primeiro disco de inéditas do cantor de Santo André (SP) que há uns bons anos trocou o Brasil pela Alemanha, onde casou e mantém uma agenda regular de elegantes apresentações – todas compartilhadas com frequência.

Mais que uma saudade do seu país natal, acredito que a ação nas redes sociais seja uma forma de não fazer os fãs esquecerem o nome de um intérprete soberbo que começou a chamar atenção nos anos 1990 dentro de uma geração que foi abraçada pelo rótulo do “eclético”. Quando, em 1992, Cordeiro colocou seus agudos inacreditáveis a serviço de um repertório que tinha Rolling Stones, Nina Hagen e Chico Buarque, muitos olhares se voltaram para ele.

O pique se manteve num segundo disco – que trouxe ótimas releituras de Aretha Franklin, Dalva de Oliveira e Raul Seixas – e atingiu seu ápice quando Edson abordou clássicos das discotecas. Ele vendeu feito água e emendou requentou a ideia por quatro discos. O primeiro, Clubbing (1998), é curioso enquanto o segundo, Disco Clubbing – Ao Vivo (1998), fez o cantor rodar o Brasil muitas vezes num show pra lá de divertido.

Daí em diante, Edson Cordeiro parece ter se desiludido com as exigências do sucesso abrindo mão de qualquer facilidade. Os capítulos que vêm a seguir são oscilantes e marcam um distanciamento do intérprete com o Brasil e com a popularidade, ao mesmo tempo em que buscou manter o ecletismo na voz abençoada que vai do erudito ao popular, passando pelo jazz.

O ponto alto desses tempos de distanciamento é a parceria com o trio Klazz Brothers. O disco que eles fizeram juntos é um festival de maravilhas, que mistura Garota de Ipanema, Miss Celie’s Blues e com My way com a ópera Carmen e Creole Love Call. Infelizmente, a parceria que mostra Edson Cordeiro oferecendo o seu melhor como intérprete cheio de inteligência, fluidez e talento só foi lançado na Europa (apesar de estar disponível nas plataformas de streaming).

E diante desse monumento musical dividido com um trio de jazz, Bem na Foto parece mais um esforço de soar popular. Há muitas ideias inéditas na obra do cantor de 51 anos, mas elas acabam soando aquém do que poderiam. Começa que ele canta mais grave, deixando de lado um brilho raro que ele extrai dos agudos sempre límpidos. E as músicas soam muito redondinhas, facinhas, sem aquele tempero pulsante dos discos de estreia.

Bem na Foto tem samba rock (Tudo no meu Pé e a faixa-título), reggae (Mimado), balada clubber (É o que Não é), rap com pegada roqueira (Lux in Tenebris) e outros ritmos. Cada composição tem seu apelo, mas parece que a todas falta alguma coisa. Talvez seja a certeza que Edson Cordeiro teve em outros momentos de que não é um cantor popular.

Os dois momentos que chamam mais atenção em Bem na Foto podem confirmar isso. A estrada e o Salto mistura bateria eletrônica com uma orquestra de cordas para emoldurar o canto doce do cantor falando sobre o caminhar da vida de artista e suas transformações. Tem ainda Que Tiro é esse?, um samba canção que versa sobre a violência cotidiana das grandes cidades.

Servir às regras do mercado não deve ter sido uma experiência agradável para Edson Cordeiro. A popularidade do início da carreira deve ter lhe dado muito, mas não deve ter sido compreensível quando ele quis apresentar outras ideias menos rentáveis. Talvez hoje, morando no exterior, ele consiga manter uma agenda de apresentações no nível de sua sofisticação para um público mais aberto a isso. Talvez Bem Na Foto seja uma vontade de voltar a tocar no Brasil, uma vez que um disco de fado e um trio de jazz chamaria pouca atenção por aqui. Talvez, talvez, talvez… Certeza mesmo é que ele mantém uma voz soberba e que sempre vai gerar curiosidade saber o que ele anda fazendo com ela.