Discografia

Selo Sesc embala obra do Premê em caixinha

O que legitima um movimento musical? Há quem diga que é preciso ter um manifesto explicando as intenções do grupo, para outros basta uma sequência de dados que coincida, como época e local. O fato é que, assim como uma geração de músicos foi apelidada aqui de Pessoal do Ceará, lá em São Paulo, uma turma foi agregada sob o rótulo de Vanguarda Paulistana. As semelhanças entre os dois grupos são muitas. Sem unidade artística ou manifesto, o que ambos tinham em comum era uma aposta na liberdade artística e numa poética muito particular, principalmente quando o assunto são os costumes de seus lugares. Se os daqui se reuniam no Bar do Anísio, a “sede” da Vanguarda era o Teatro Lira Paulistana (curiosamente, fundado pelo cearense Riba de Castro).

Uma parte do Pessoal do Ceará conseguiu contrato em gravadora e popularidade nacional. Já a Vanguarda Paulistana teve sua história registrada em trabalhos independentes, mal distribuídos por pequenos selos, que, só com a ajuda o tempo, tiveram seu valor reconhecido. É o caso do Premeditando o Breque, um dos expoentes daquela cena surgida no fim dos anos 1970, que teve sua discografia relançada esse ano pelo Selo Sesc. A Caixinha do Premê traz os seis álbuns da discografia oficial da banda, desde o autointitulado Premeditando o Breque (1981) até o derradeiro Vivo (1997). Completam o pacote um livreto biográfico com quase 100 páginas de fotos e histórias e a coletânea de raridades Como Vencer na Vida Fazendo Música Estranha Vol. II (que nunca viu ou verá o volume I ser lançado).

“A gente estava com a ideia de reunir o conjunto da obra por que nossa carreira foi um tanto atribulada. E reunir todos esses discos foi uma batalha campal. O processo burocrático dessa caixa foi enorme. O namoro com o Sesc levou seis anos. Eles têm uma agenda e são extremamente cuidadosos com a burocracia sobre direitos autorais. Então foram cinco anos de burocracia e um de música”, narra Marcelo Galbetti, que integra o Premê desde sua primeira formação. O embrião da banda veio em 1976, uma turma de estudantes do departamento de música da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo que decidiu peitar a erudição daquele ambiente montando um trabalho com qualidade técnica e muito bom humor. O entra e sai de músicos foi grande na história do Premê, mas ainda resistem, Mário Manga, Claus Petersen e Wandi Doratiotto, além de Marcelo.

Por telefone, de São Paulo, ele conta como os anos de banda foram divertidos, mas muito difíceis. “O Premê sempre teve muito prestígio, mas nunca teve dinheiro”, resume Marcelo contando que o primeiro disco foi feito na raça, por conta própria. O reconhecimento chegou, principalmente por conta daquela verve criativa para abordar temas como homossexualidade, bom gosto estético, gravidez precoce, menores abandonados, economia, fanatismo religioso ou problemas intestinais. “Óbvio que a gente procurou fazer a coisa toda com sutileza, com elegância. A gente nunca foi fã do escracho, até porque o foco mesmo é a música. O humor é característica da pessoa. Todo mundo da banda é metido a engraçadinho”, explica Marcelo, aconselhando que “o que define sua intenção é o tom. Você é mais efetivo na sua crítica se você for educado”.

Para dar forma a esses temas, o Premê misturava as mais diversas influências, que iam das crônicas urbanas de Adoniran Barbosa até a erudição de Beethoven, Mozart e Debussy, todos citados na faixa Grandes Membros. Nesse arco, tem Paixão nas Alturas, sobre um urubu que se apaixona por uma asa delta, e lembra as harmonias de Sá & Guarabyra; Carrão de Gás, um rock à la Capital Inicial, sobre um ex-motoqueiro cheio de pinos na perna; e tem a instrumental Marana, que lembra Novos Baianos. “Com relação à musica popular, obviamente a gente tem muita influência. Novos Baianos, que é um dos grupos mais importantes que já andou nesse país, assim como eu considero o Ednardo, um cara espetacular. Também tem muito Beatles na banda porque é uma unanimidade. A gente sempre se dedicou a fazer coisas variadas e o humor fazendo a ligação. Todos da banda tem formação erudita”, aponta Marcelo citando ainda Bob Marley, Led Zeppelin, Emerson, Lake & Palmer, entre outros.

No entanto, apesar do bom humor, da erudição e do prestígio, o Premê só conheceu o sucesso popular uma vez, com São Paulo São Paulo. Brincando descaradamente com o sucesso de Frank Sinatra New York New York, eles fotografam uma cidade onde “o clima engana e a vida é grana”. A faixa, incluída na trilha da novela Vereda Tropical, impulsionou as vendas do disco Quase Lindo (1983), e derrubou o bairrismo que impedia os paulistanos de tocarem no Rio de Janeiro. Dois anos depois, a tentativa de repetir o sucesso veio com O Melhor dos Iguais (1985), mas nem a produção do hitmaker Lulu Santos deu jeito e eles voltaram ao underground. “O Lulu é bem diferente. Uma personalidade muito forte e nós também. Não houve briga, mas ele não conseguiu moldar a banda do jeito que ele queria. Eu não diria que foi difícil, mas não diria que foi tranquilo também. Por outro lado, o Lulu foi muito respeitoso na nossa relação e com o nosso trabalho. Tentar moldar o Premê ao formato Lulu Santos não ia dar certo. Então ele foi bem correto”.

“A gente nunca cobrou um cachê barato e sempre tinha um louco que pagava. O fato é que todos os shows, sempre que a gente fez, sempre foi casa lotada. O que prova que casa lotada não sustenta ninguém”, brinca Marcelo explicando a separação da banda nos anos 1990. Na mesma década, em seu disco de estreia, Cássia Eller regrava Rubens, de Mário Manga, pescada do disco Grande Coisa (1986) e faz sucesso entre os antenados. Mesmo sem uma agenda oficial ou novos discos, a amizade perdurou e o Premê seguiu fazendo shows esporádicos, principalmente por São Paulo, ao passo que cada um toca seus projetos particulares. Agora, quando o tema é um disco de inéditas… “Está todo mundo já dobrando o cabo da boa esperança. É muito complicado falar nesse momento. A gente tem conversado e tem ideia, mas está deixando o barco correr”, afirma Marcelo.