Discografia

Depois de 30 anos, Rumo se reencontra no disco Universo

Também surgida no meio da Vanguarda Paulistana, o Rumo tem uma trajetória muito parecida com a do Premê. Seis discos oficiais, muitos shows no Teatro Lira Paulistana, respeito da crítica, sucesso de público, mas muito pouco retorno financeiro. Principalmente para eles, que eram dez na banda. Acabaram se separando no início dos anos 1990, mas seguiram próximos, se encontrando em shows e projetos esporádicos. Quase 30 anos depois, eles resolvem se reencontrar e gravar Universo, primeiro disco de inéditas desde 1988, quando lançaram Quero Passear.

Passados tantos anos, o Rumo é o mesmo em delicadeza e letras cheias de filosofias em palavras simples. Com exceção de Ciça Tuccori, falecida em 2001, seguem firmes Luiz Tatit, Ná Ozzetti, Hélio Ziskind, Akira Ueno, Paulo Tatit, Pedro Mourão, Gal Oppido, Zecarlos Ribeiro e Geraldo Leite. “Quando surgiu a ideia, fazer um disco de inéditas foi o que nos encantou. A gente não se encontrava desde 1991 para fazer um disco. Sempre tivemos vontade de fazer o Rumo sobrevivendo por mais tempo, mas era quase impossível por conta de ser uma banda de 10 pessoas”, comenta Geraldo por telefone.

Produzido por Marcio Arantes, Universo mostra que o tempo não passou para o Rumo. São 14 faixas que reafirmam o valor da música, o amor por São Paulo e a importância da amizade. “Não estava claro que na hora que juntasse todo mundo ia ser harmonioso. Mas foi extraordinário”, lembra Geraldo contando que, após o convite do Selo Sesc, foram dois meses para seleção de repertório, que reúne algumas canções que estavam prontas, mas permaneciam guardadas, além de outras totalmente inéditas.

Entre elas tem um baiãozinho Dengo, parceria de Luiz Tatit com Ná Ozzetti, extraordinária cantora que só agora estreia como compositora. O mesmo acontece com Akira Ueno, que divide com Pedro Mourão a autoria de Paulista, uma belíssima homenagem à cidade que os viu nascer e a grande surpresa de Universo. De Hélio, Cada Dia é uma bela lista de cobranças da vida adulta. Já Estrela Solitária é um delírio espacial que deságua num campo de futebol.

Mas o recado já está dado em Toque o Tambor, que abre Universo passando a mensagem de como a música pode salvar os momentos difíceis. “Não tenha dúvida disso. Escolhemos essa música para abrir por isso. É típico do Tatit, porque tinha muito a ver com as andadas deles na USP, onde ele via jovens tocando tambor. Essa canção, no momento que a gente vive, por mais que as coisas estejam difíceis, toque o tambor que você vai superar. É uma forma de reação e de satisfação”, sugere Geraldo.

Para quem quer conhecer mais sobre a Vanguarda Paulista, seguem alguns nomes

Itamar e Arrigo

Falar da cena paulistana daquele fim de anos 1970 passa obrigatoriamente por dois nomes: Itamar Assumpção (1949-2003) e Arrigo Barnabé. Cantores, compositores e músicos cheios de particularidades, ambos lançaram clássicos nacionais, admirados por décadas, mas legados ao underground. Itamar estreou com Beleleu, Leleu, Eu, em 1980, dividido com a banda Isca de Polícia, já retratando a São Paulo urbana, caótica e sedutora. Arrigo, no mesmo ano, estreou com Clara Crocodilo, dividido com sua banda Sabor de Veneno. Apesar de inserido na mesma cena, o compositor nascido em Londrina nunca se apresentou no Lira Paulistana. Em 2010, o Selo Sesc agrupou a discografia de Itamar Assumpção no box Caixa Preta.

Cida Moreira

Maria Aparecida Guimarães Campiolo é atriz, cantora e pianista. Sua obra mistura as mais variadas linguagens musicais, desde o jazz e a música clássica até o rock de Bob Dylan e Vanguart. Dona de uma performance cheia de personalidade, ela estreou em disco em 1981, com Summertime, álbum de voz e piano gravado ao vivo no Lira Paulistana. Em 38 anos de carreira, ela já dedicou álbuns às obras de Bertolt Brecht, Chico Buarque e Cartola. Junto de Cida, um time de cantoras e compositoras defendeu a voz feminina da Vanguarda. Eliete Negreiros, Vania Bastos e Tetê Espíndola são as mais reconhecidas.

Língua de Trapo

Outra banda que fez história na Vanguarda Paulistana, o Língua de Trapo apostava no humor mais escrachado, escatológico e apimentado. Surgindo no fim dos anos 1970, eles fizeram algum sucesso ao criticar posturas políticas e costumes em faixas como Os Metaleiros Também Amam, Sinfonia do Trânsito, Fado da Falência e Cagar é Bom. Numa trajetória muito semelhante à do Premê, eles seguem se reunindo em shows e gravações, mesmo com agenda irregular. Em 2005, a discografia da banda foi relançada num box comemorativo de 25 anos de carreira.