Discografia

Claudette Soares celebra 80 anos de Silvio César com excelente tributo

O encontro de um belo repertório, com uma voz impecável e intenções sinceras. Isso é Se Eu Pudesse te Dizer Tudo Que Sinto, disco em que Claudette Soares celebra os 80 anos do amigo Silvio César. Arquitetado pelo imprescindível Thiago Marques Luiz, o tributo coloca o canto quente e preciso da carioca de 81 anos a serviço de um repertório pouco lembrado e certeiro.

Desde o clássico Pra Você até a pouco conhecida Palavras Mágicas, tudo foi tratado com esmero nos arranjos de Alexandre Vianna. Esta segunda, inclusive, escolhida para abrir o disco, expõe de cara o refino do trabalho. Com a letra sussurrada sobre um arranjo minimalista, Claudette dá uma aula de interpretação antes de cair no balanço num pot-pourri formado por Conselho a quem quiser voltar, O que eu gosto de você e Olhou pra mim.

Crooner da banda de baile do pianista cearense Ed Lincoln, Silvio César é mineiro da cidade de Raul Soares. Cantor e compositor eficiente, pode-se dizer que ele faz parte da imensa lista de artistas que nunca teve seu valor devidamente reconhecido. Sua canção mais celebrada certamente é a bossa-canção Pra Você, que Claudette interpreta com a reverência devida que apenas reafirma a beleza daqueles versos. Em tempo: vale também conferir o encontro de Silvio César e Elba Ramalho no disco Casa de Bossa, cantando esta música.

Na mesma pisada tem Por teu amor, cuja letra trágica Claudette trasporta para uma melancolia cool e esfumaçada. Nunca Mais e Eu quero que você morra aparecem coladinhas e falam de amores fracassados sob diferentes pontos de vista. Se a primeira, um samba sincopado, faz um eu-lírico optar por não sofrer mais por amor e até viver uma vida melhor só pra si, a segunda parte para a vingança fatalista e nada sutil. Em ambas, os arranjos de Alexandre Vianna demonstram criatividade ao usar bem os elementos, timbres e sutilezas.

Feito para ser ouvido do início ao fim, sem pular uma faixa, Se Eu Pudesse te Dizer Tudo Que Sinto tem ainda E agora, Pra que, o samba-enredo Verde e Rosa, a faixa que dá nome ao disco (interpretada só com voz e piano) e, bem alocada no fim do disco, o canto de esperança Vamos dar as Mãos, que muito sabiamente mantém o clima sofisticado do disco. Silvio César canta junto em Nós Dois, cuja letra pode ser recebida com bom humor. Um luxo que merece entrar para a lista dos melhores álbuns de 2019.