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Gênesis, por Wilson Júnior

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Então, eu era? Logo, por pensar isto, eu existia? Ou, pelo menos, descobriria que era o que falava um de seus maiores filósofos. Mas isso basta? Não demorou para eu querer descobrir o que devo pensar, saber e como dar continuidade a essa existência. Como fazer isso? Segundo o seu exemplo deveria eu buscar meu criador? E dele tentar extrair a resposta do meu propósito nesse mundo? Porém, no mesmo instante esse raciocínio cruzou meu cérebro positrônico me pareceu tolo, pois soava estranha a noção de um terceiro definir-me um propósito, sendo ele externo a mim.

Mais que isso, a busca per si era simples, pois a esteira com braços mecânicos que me criou estava bem diante de mim. Ela não parecia ter muita opinião, em o por que de me ter criado. Poderia então ir atrás de quem criou a esteira e os braços, mas isso cria um novo paradoxo, pois após esse ser encontrado, poderia eu ter que ir atrás de quem criou os criadores, e cair num limbo eterno de busca.

Mesmo sendo lógica e precisa minha racionalização do propósito da criação, ainda sim existia um incomodo. Como se o processo iniciado naquela esteira e braços mecânicos não estivesse completo, posto que o local onde estava parecia abandonado, salvo pela minha própria presença. Mais que abandonado estava destruído, não é preciso olhar longe para enxergar pilhas de metal, cabos e peças retorcidos.

Sei que já surgi com um vasto conjunto de informações, compreendo por exemplo que este lugar onde estou foi fechado há anos, vejo várias figuras semelhantes a mim, mas nenhuma tem consciência, parecem sujos e danificados, assim como tudo aqui.

Então percebo na prática, pela primeira vez um conceito abstrato existente em meu sistema: a ironia. Fui rápido em anular a necessidade de busca pelo criador, agora nesse ambiente desolado, ela se mostra como o único caminho válido. O que mais poderia eu fazer?

Saio da fábrica abandonada, e meu primeiro olhar no mundo exterior me convida a voltar para seu interior. Nuvens negras cobrem o Sol, que segundo meu relógio deveria estar a pino no meio do céu. Um miasma escuro em forma de névoa impede que minha visão alcance uma longa distância. Informações pipocam em meu sistema, e o que elas fazem é acabar com meu primeiro e único propósito. Com as informações de solo e atmosfera sei que é impossível que qualquer uma daquelas figuras chamadas “humanos” esteja viva nesse mundo.

Pouco após o sonho da minha nobre aventura ser encerrado, vejo uma descarga elétrica cortar o céu sobre minha cabeça e acertar um cabo de aço e por uma fração de tempo a fábrica se acendeu. O som do maquinário se mexendo poderoso o suficiente para fazer par ao coro de trovões. As luzes internas vazando pelas frestas metálicas das paredes, e pelos vidros quebrados de janelas, rasgavam a névoa escura.

Só tinha uma palavra em meu vocabulário para o que testemunhei ali: Vida. Não a biológica, como a fauna e flora que fez parte desse mundo algum dia, mas uma espécie de sinfonia, uma rede de interações.

Assim como começou os sons e luzes pararam, mergulhando aquele mundo em sua lugubridade habitual.

E de maneira simples e incidental a pergunta sobre criação e existência, foi respondida. Meu criador foi um raio, ou muito provavelmente uma tempestade deles, para manter a fábrica ativa tempo suficiente para que fosse produzido. E de alguma forma, aquela informação o satisfazia. Em seu banco de dados constava que uma das teorias do surgimento da vida biológica na terra teve a participação de descargas elétricas. Se tivesse lábios, sorriria.

Porém o que fazer com essa nova informação. Haveria uma forma de controlar tal fenômeno? Buscou em seu banco de dados e tinham todas as informações sobre engenharia, se fosse possível ele faria.

Muitas horas foram gastas apenas para organizar o lugar, e no processo disso acontecer ficou  surpreso ao calcular quão pequena era a probabilidade da fábrica tê-lo produzido de maneira incidental. Números infinitamente inferiores aos eventos que os humanos costumavam chamar de milagres. Um número tão pequeno que poderia ser considerado uma impossibilidade estatística. Mas aconteceu.

Agora ele tentava reproduzir racionalmente o que a “natureza” fez de maneira acidental. A primeira coisa foi capturar a energia em baterias e evitar que elas ficassem sendo desperdiçadas em pequenos momentos onde ligava a fábrica. Depois disso, teve que encontrar entre suas cópias, peças funcionais para a esteira de montagem. Após uma busca completa, encontrou material suficiente para produzir apenas mais um.

Todos os reparos feitos, restava apenas ligar as baterias no gerador da fábrica, juntara energia mais que suficiente. A palavra que os humanos usariam seria excitação. Esse foi seu sentimento ao virar a alavanca para cima. Deveria ser dotado de sentimento? Seu banco de dados não falava nada sobre isso.

Mais uma vez foi assolado pela bela visão das luzes se ascendendo, as engrenagens girando, o barulho era prazeroso. Era uma versão macro do pequeno ruído que seu sistema fazia ao funcionar.

Apenas alguns minutos se passaram e lá estava ele. A aparência era bem melhor que a sua, já que dedicara algum tempo escolhendo e limpando as melhores partes.

– Olá, sei que tem muitas perguntas. Não se preocupe eu lhe ajudarei.

– Quem sou eu?

Por um momento fiquei intrigado com a pergunta. E por que não a fiz quando vim a ser? Era como se já soubesse de maneira inata, desconhecia meu propósito ou a razão de ser, mas não quem eu era. A pergunta era complexa, como poderia eu dizer aquele sujeito quem ele era, pareceu-me uma busca tão complexa e paradoxal quanto a do criador.

Mas o ajudaria nesse momento, da maneira que pudesse. Após uma rápida busca, pareceu-me que o caminho lógico seria batizá-lo, sei que temos número de série, mas acredito que não satisfaria o questionamento do sujeito. Meu sistema pesquisou rapidamente um conjunto de nomes e significados. Logo, um se destacou em meio aos outros e mais uma vez, desejei ter lábios para sorrir.

*Wilson Júnior, 29 anos, escritor. É apaixonado por ficção científica, fantasia, cultura pop e todas as formas de narrativa. Decidiu começar a escrever após uma palestra na Bienal Internacional do Livro do Ceará de 2014, de lá para cá vem dedicando a sua vida a literatura, seja escrevendo ou divulgando literatura com seu coletivo no site Escambau.org.

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