Editora Dummar

A palavra e o silêncio, por Iana Soares

Há uma energia cósmica que, às vezes, produz uma completa descrença na palavra. Escuto e não acredito. Leio e não faz sentido. Digo e parece que, antes mesmo da reverberação e da transformação do som em signo, tudo se desmancha. Há dias em que a palavra é extremamente frágil e impotente.

Tentei convencer uma grande amiga de que há tempo para ela ser feliz em novos caminhos nesta vida. Sei da coragem e das reinvenções, mas acompanho também a falta de um ponto final em algo que já não se sustenta e lhe adoece o corpo. Não podemos escolher pelo outro: está na cartilha da vida adulta, no capítulo da gestão da angústia. Não habitamos nem o corpo nem os desejos do outro, mas há uma teimosia diante daqueles que amamos. Usei argumentos antigos e arrisquei alguns novos, mas me desesperei diante da incapacidade de convencimento. Não sei se faltou uma palavra certa, aquela que fosse ponte para a transformação, uma que anda perdida e não consigo agarrar. Ou pior: talvez essa palavra não exista. Ando entalada desde então.

Comecei a ler “Só garotos”, da Patti Smith. Logo nas primeiras páginas, a artista descreve a primeira vez que viu um “milagre singular”, que a mãe nomeou de “cisne”. “A palavra por si mal dava conta de sua magnificência, nem continha a emoção que ele produzia. Sua visão gerou uma necessidade para a qual eu não tinha palavras (…) Fiz força para encontrar palavras que descrevessem minha própria ideia sobre ele. “Cisne”, repeti, não totalmente satisfeita, e senti uma pontada, uma saudade curiosa, imperceptível aos passantes, à minha mãe, às árvores ou às nuvens”, escreve.

Me agarrei à melancolia suave da Patti como quem encontra um mapa. Tenho tentado fazer as pazes com a palavra e compreender que ser impotente também é parte da viagem. Tudo bem. Encontrar as palavras, inventá-las, subvertê-las, abraçá-las e também deixá-las partir pode ser um jogo bonito, não só doloroso. Quero que minha amiga enxergue o cisne, mesmo que ainda não saiba nomeá-lo. Estarei aqui, sempre. As palavras também descansam no silêncio.

*Iana Soares é jornalista e fotógrafa

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