Editora Dummar

Apesar de vocês, por Iana Soares

Não quero gastar a véspera para narrar a tragédia anunciada: um candidato que defende a tortura pode ser eleito para presidir um estado democrático. Entre as frases repetidas pelos eleitores que emprestam a vida e os corpos para afirmar a barbárie, uma me atinge e magoa do lado esquerdo do peito: “precisamos de uma mudança”. Por que votam no fascista que está há quase três décadas no poder, não aprovou nenhum projeto de lei relevante e tem como herói um torturador que colocava ratos nas vaginas de brasileiras durante a ditadura militar? É nesse Brasil que querem viver?

Prefiro falar do Alexandre Veras que, na iminência dos dias que virão, planeja arranjar uma casa com um quintal onde caiba muita gente, sentada e em pé, para inventar dias de saúde e resistência. Quero dizer do orgulho que tenho da minha mãe, a Eliana, que ordenou tantos sentimentos e informações para afirmar a justiça social e a paz entre diferentes diante da amiga que diz odiar o PT, mas não enxerga que, com seus perversos discurso e voto, agride a existência de muitos, inclusive a da minha irmã. Quero falar da minha avó Neuma, da tia Iara e da Palmira, idosas que atravessaram o tempo e usam a experiência para espalhar liberdades, nunca ódio.

Admiro o Luis Santiago, que juntou tanta gente bonita para conversar sobre democracia no meio da rua. Celebro a arte da Aline Albuquerque, que fortalece palavras como amor, resistência e luta ao torná-las abraço. Me emociono com a Gabriela Catunda, que compartilha informação e esperança todos os dias. Aplaudo o Plínio Bortolotti e tantos outros jornalistas coerentes e corajosos. Abraço tantos amigos e desconhecidos que fazem da própria existência uma afirmação irrestrita da vida. Que nunca desistem. Uma multidão. É bonito demais o Brasil que construímos.

Quero falar de você, de mim, que não aceita o medo como guia. Que até anda assustado, que tem dias tristes, que sente uma moleza no corpo ao ver alguém que ama ser porta-voz do horror. Precisamos seguir fortes, atentos e ter saúde para proclamar um mundo onde os dias sejam jardim e jamais deserto. Seja qual for o resultado, ninguém poderá dizer que perdemos, pois seguimos vivos, em movimento e cheios de poesia. E, como vi em uma tirinha compartilhada pelo escritor Valter Hugo Mãe, “eles não suportam a poesia, esses canalhas”. Fica decretado, então: todos os dias serão de virada e esperança. Vamos juntos.

*Iana Soares é jornalista e fotógrafa

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