Editora Dummar

É preciso resistir ao ódio, por Iana Soares

Comecei a escrever este texto após sair da sessão do filme Corpo Delito, primeiro longa-metragem de Pedro Rocha, jornalista e agora cineasta. Saí perturbada do juízo, angustiada com a nossa Fortaleza, feliz com aquele filme existir e com vontade de dizer para cada morador desta cidade: assista.

No filme, Ivan está preso a uma tornozeleira eletrônica, cumprindo pena em regime semiaberto depois de oito anos preso. O protagonista reclama da limitação imposta pela máquina. O espectador pode questionar a ânsia de liberdade e dizer que aquilo é melhor do que a prisão. O filme, entretanto, contraria os discursos que propagam que “bandido bom é bandido morto” e nos coloca diante do humano e suas complexidades. Não tenhamos pressa em julgar, não é simples nem fácil.

Tensionando documentário e ficção, todos encenam a própria vida diante da câmera. No debate após a sessão, Fanta, uma das “personagens”, conta o momento em que foi convidada para fazer “o papel da mãe que perde o filho”. Na tela, vemos Gleici, esposa de Ivan, se arrumar para visitar Edivando. Na cena seguinte, podemos acompanhar as duas no cemitério do Bom Jardim, sob a luz dourada que ilumina as lápides dos jovens exterminados em Fortaleza, pretos e pobres. Da cadeira e sob meus privilégios, escuto a mãe narrar que ainda sonha com o abraço do filho que morreu baleado.

Há 13 anos, emprestei uma saia tingida, bem de humanas, para o Pedro durante um encontro de estudantes, em Belém. Era costume os homens usarem saia um dia, em protesto contra um ato de homofobia em encontro anterior. Pedro acabou ficando com a peça. Alguns dias depois, na volta do evento, nosso ônibus pegou fogo. Todos chegamos com a roupa do corpo. Pedro de saia. Lembrei-me disso ao ver o filme e me emocionei com a insistência utópica, com a possibilidade de inventar outros mundos na resistência dos gestos. Agora em um filme.

Quando tudo parece ser apocalipse, como apostar nas liberdades? Corpo Delito é uma insistência no ser humano, não apenas nos da tela, também naqueles que assistem. Uma crença na empatia. É preciso resistir ao ódio, disse o Pedro em uma entrevista. É preciso dar um jeito, meu amigo.

*Iana Soares é jornalista e fotógrafa

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