Editora Dummar

Dezembro ou Isso ainda vai te matar, por Wilson Júnior

— Isso ainda vai te matar.
— Só unzinho depois do almoço, pra harmonizar com o café.
— Esse já é o segundo.
— Ansioso para a reunião hoje?
— Deveria?
— Velho, depois do que rolou esse ano, acho que sim. Tu sabe que eles vão fazer todo aquele ritual.
— Pensei em não ir…
— Não posso dizer que apoio tu faltar, mas garanto que renderá um bocado.
— Não haveria outro assunto até o ano seguinte. Mas, por outro lado, estou com uma vontade enorme de peitar todo mundo.
— Logo hoje, mano?
— Especialmente hoje. Natal é dia de presente, e esse seria o melhor que eu poderia me dar.
— Tu sempre foi metido a rebelde, mas desrespeitar o dia de hoje já é demais.
— Desrespeito? Você é realmente farinha daquele saco. Adora a brincadeirinha deles, não é mesmo? É o dia do ano que eles não te cobram por ser um fracassado aos trinta? É tão valioso assim não ser merda por um dia?
— Porra! Eu não sou o alvo aqui, sabia?
— Foda-se!
— Tu não deveria ir, então. Se tá falando assim comigo, imagine lá, com ela presente…
— Como se eu não soubesse. Ela nem é da família. Já vi isso antes, quarenta anos da minha vida vendo essa merda rolar.
— É saudável, cara, limpar tudo, recomeçar…
— Limpar? Recomeçar? Se isso ajudasse alguma coisa nem precisaria acontecer, entende? A lição tava aprendida. Esse tempo todo e nada nunca muda, mamãe e seu complexo de Deus.
— Sei lá. Para mim serve. Aliás, estou pensando seriamente em usar o ritual em você esse ano.
— Pra quê? Só se for pra perder a única dose de sinceridade que ainda tem na tua vida. Sem falar que não há nada que eu tenha dito ou feito a você que me arrependa.
— Sério mesmo?
— Tenho pensado sobre isso.
— Sobre o quê?
— Se me arrependi, do que fiz ou disse.
— E?
— Não sei bem, mas acho que não…Não é uma reflexão concluída, é mais um daqueles monólogos internos que parecem megafilosóficos, mas, na verdade, é besteira.
— Provavelmente, besteira. Você puxou isso da mamãe, sempre se achou melhor do que é. Moral e intelectualmente superior…
— E daí?
— Olha, sempre fui um fracasso e nunca me senti desafiado por nossas conversas. Talvez por isso toda essa sua vontade de causar confusão. Você é tão fracassado quanto eu, mas tem dinheiro para disfarçar.
— Olha só quem virou psicólogo. Longe disso, estou apenas cansado.
— Você sempre deu as piores desculpas. Isso é um pouco covarde.
— Covarde, eu?
— Sim. Poderia simplesmente ir hoje, falar o que tem que falar e seguir em frente.
— E eu preciso disso para seguir em frente?
— Talvez ela precise.
— Ela que se foda. Já faz dois anos, não quero trazer tudo de volta.
— Acho que o silêncio sempre vai trazer o assunto. É sempre ele que tá lá, o não dito.
— Você já está enchendo o saco.
— É um pedido de desculpas, cara, só isso. Eles fazem a pompa toda porque são um bando de engomadinhos de merda. Mas é só isso, um pedido de desculpas.
— Não é tão simples assim.
— É só chegar lá, ouvir e falar.
— Talvez essa merda faça bem a outras pessoas, mas a mim vai ser pior. Desculpas não servem pra nada. As pessoas não perdoam as coisas.
— Claro que perdoam, acontece o tempo todo. Eu te perdoei agora por me chamar de fracassado.
— Eu não pedi.
— Só mostra a minha superioridade moral!
— Não. Mostra apenas que você não se importa. É nisso que tenho pensado. Ninguém perdoa, não as coisas sérias. Elas doem, doem e doem. Até que não doam mais. Você deixa de se importar…
— Olha…
— Me dá um cigarro?
— Voltou?
— Isso vai te matar. Se eu fumar um, estarei te salvando… um pouco.
— Fracassado, lembra? Ninguém liga.
— Eu ligo.
— Faz algum sentido o que você falou.
— Que você vai morrer de câncer?
— Não, idiota. A coisa do perdão. Me sinto um pouco mais merda agora.
— Desculpa, não era minha intenção.
— Há, você fez. Viu? Nem morreu.
— Como se você se importasse.
— Então por que pedir desculpas?
— Pra si mesmo. Para se sentir melhor pelo que se fez, ou disse. Diminuir um pouco a merda.
— Alguém sai ganhando, então.
— Sempre sai, mas não quem deveria.
— E é diferente em algum outro setor da vida?
— Precisaria…
— Por quê?
— Não era pra ser divino? Perdoar?
— Como você disse, ninguém perdoa de verdade.
— Você não deveria me citar, não sou tão esperto. E você vai hoje, imagino.
— Claro. No meu calendário nem é marcado como Natal, é marcado como “o dia em que não sou um merda para minha família”.
— Você tem que dar um jeito na sua vida, cara.
— Me diz algo novo.
— Acho que também vou…
— Isso não é novo. Ano após ano temos essa mesma conversa, você reclama, critica, xinga. De noite tá lá com um sorriso no rosto. Já tá virando um dejà vu.
— Sou um hipócrita.
— Queria ter um emprego para onde voltar e fugir desse papo.
— Você falou com ela?
— Não. Por que eu falaria?
— Sei lá.
— E você falou?
— Não. Já faz meses.
— Então vai ser realmente estranho hoje à noite.
— Obrigado. Isso realmente ajuda muito!
— Não vim aqui para ajudar, vim pelo almoço grátis.
— Como pode ser tão difícil eu simplesmente não ir?
— Não sei, mas tenho uma teoria que mamãe coloca algo na água.
— Você não leva nada a sério, né?
— Tem alguma coisa que você não leve a sério? Esse é o problema: as pessoas fazem coisas, magoam outras, brigam, e fim. A vida continua.
— Meu caso é realmente tão simples? A vida continua?
— Você tá aqui, não vejo algodões no seu nariz. Não ficou menos rico, e ainda tá mais magro. Até nisso tem sorte. Quando a Joana terminou comigo, ganhei de presente vinte quilos. Até hoje não consegui devolver.
— É fácil para você ser assim.
— Você é muito cara de pau. Posso não ter minha vida ajeitada, ou o teu emprego dos sonhos, mas não sou um hipócrita de merda como você.
— Olha só, o bicho grilo ainda tem brio.
— Vá se foder!
— Ei, fica calmo aí, não exagere.
— Até mais tarde, tenho um “trabalho”. Feliz Natal.
— Mas eu não sei se vou!
— Há! Te vejo à noite.

***

— Seu irmão disse que você não vinha hoje.
— Estou aqui, não estou?
— Posso ver na sua cara que não quer estar.
— Podem me forçar a vir, não a gostar.
— Ninguém te obrigou. Sempre é um convite, assim como os outros de me visitar.
— Convite? Sempre soou como um pacto com o demônio. Fico com a impressão de que algo ruim vai me acontecer se não vier.
— Isso diz mais sobre você do que sobre o que acontece aqui.
— Você a convidou?
— Sim. É natural.
— Não tem nada de natural. Ela não é da família. Não depois que os papéis foram assinados.
— Ela vai ser sempre família. Nossos laços são maiores do que contratos.
— Isso é um absurdo. Esse “laço” não está mais aqui.
— Não vejo dessa forma. Aqui vocês vão poder conversar, pôr um ponto final.
— Acho que senhora está atrasada, o juiz já resolveu essa parte.
— Se você não queria, por que está aqui?
— Não faça seus jogos psicológicos comigo, mãe. Essa também é minha casa, minha família. Tenho o direito de estar aqui. Ela que não tem.
— Me entristece você pensar tão baixo de mim.
— Jogos e mais jogos.
— Eu mimei você demais, por isso ficou assim, egoísta.
— Sempre me perguntei o que você ganha com isso. Esse prazer sádico de colocar as pessoas frente a frente, confrontá-las. Não compro essa baboseira hare krishna kumbaya que você inventou.
— Você sempre foi covarde.
— É a segunda vez que me dizem isso hoje.
— Eu notava o prazer em seus olhos vendo os outros passarem no rito, mas agora que chegou sua vez de ser exposto de verdade, mal consegue se controlar.
— E a sua vez? Quando vai chegar? Papai morreu sem ter a oportunidade dele, não é mesmo?
— Como ousa trazer seu pai nesse assunto?
— E ele pode ser trazido a algum assunto? Tua culpa não é diferente da minha, mas não se pode falar dele, não é?
— Eu já pedi desculpas a você! Mil vezes. Sinceramente, não tem um dia que eu não queira sentar naquela mesa e olhar nos olhos dele, pedir perdão por coisas que ele sequer soube.
— Pagaria pra ver essa cena.
— Você, mais que ninguém, sabe que ele me perdoaria. Sempre foi diferente da gente, melhor, assim como o seu irmão.
— Não ouse se comparar comigo. Minha situação é diferente da sua. Eu sou a vítima.
— É mesmo?
— Como você ousou trazer ela aqui?
— Ela é sua esposa.
— Ex-esposa! Ex! Pago minha pensão com regularidade para não ter que conversar.
— Seu comportamento só mostra para mim que você precisa disso mais do que ninguém.
— Vai ser feio.
— Nem sempre é bonito.
— Eu não falo nele há meses. Não falo com ela há meses.
— E todos respeitamos isso até hoje. Agora é a hora de falar.
— E se eu não quiser?
— Então escute, ela quer falar.
— Ela já chegou?
— Sim, está esperando você. Na mesa.
— Vou acabar com isso. Vou ouvir e vou embora daqui.
— Sei que vai. Amo você. Me desculpa.
— Pelo quê dessa vez? Trazer ela aqui? Papai?
— Por ter demais de mim em você. Feliz natal.
— Pra quem?

***

— Oi?
— Boa noite.
— Sua mãe avisou que você daria o tratamento de silêncio.
— Não.
— Como você está? Emagreceu, está bonito.
— Bem.
— Está vendo alguém?
— Não.
— Conheci uma pessoa… tem sido bom para mim.
— Ok.
— Sei que você não gosta disso, mas não sabia como me reaproximar de você, e eu precisava disso, para seguir em frente, sabe?
— …
— Você realmente vai se comportar como um menino?
— Não tenho nada a dizer.
— Você não tem absolutamente nada para me dizer?
— Não.
— Estamos divorciados há quase um ano, não nós falamos há meses. E nada?
— Nada.
— Não quer saber como estou? Se minha depressão está melhor? Se eu parei de me cortar? Você realmente acha que tem o direito de sentar de frente para mim e me olhar com essa cara de raiva, como se fosse eu que tivesse trepado com a terapeuta?
— …
— Trouxe uma caixa com coisas do Benji.
— Coisas?
— Brinquedos antigos, fotos. Lembra daquela fantasia de homem-aranha que ele quase não tirava?
— Ele até queria tomar banho nela. Não sabia que você tinha guardado.
— Você sabe que sou quase uma acumuladora. Sabe o que eu achei? Aquele carrinho de papelão que você fez.
— O carro de caixa de brinquedo?
— Esse!
— Sempre me perguntei se era um menino ou um gato. Recebia um presente caríssimo e queria brincar com a caixa.
— Um garoto humilde.
— Pois é.
— Sabe, eu já te perdoei pelo que aconteceu com o Benjamin…
— Oi? Como assim me perdoou? Você tá dizendo que tenho culpa na morte do meu filho?
— Não distorça o que eu estou falando, ambos somos responsáveis.
— Não, você entendeu tudo errado: nenhum de nós é. Foi o que eu passei mais de um ano dizendo pra você. Você não teve culpa. Agora eu descobri que você lidou com isso jogando a culpa em mim.
— Não vim aqui para discutir isso.
— Quer dizer que isso não é o paraíso que você imaginou? Poderíamos ter ido jantar em algum lugar, como nas mil vezes que eu propus durante esse ano. Mas não, você preferiu vir aqui, sentar nessa mesa, na frente da minha família, e dizer que eu matei meu filho.
— Eu só queria falar sobre como tudo terminou…
— Como tudo terminou? Eu sou um maldito infiel, traí você e acabou. É isso? Queria me ouvir falar na frente deles? Sua vingança era essa?
— Só queria ouvir um pedido de desculpa… pelo Benjamin… pelo que você fez…
— Eu não vou pedir desculpas! Se você quer se torturar, achando que matou o nosso filho, eu não vou ser sugado para esse buraco. Eu não matei o Benjamin!
— Eu não disse isso! Você é tão covarde que tá distorcendo tudo para fugir.
— Pronto, sendo chamado de covarde pela terceira vez.
— Eu não estava mais com raiva da traição, mas agora percebi que minha raiva nunca foi dela, minha raiva não era do que você fez. Era de você e desse senso nojento de superioridade.
— Não te devo nada. Não devo nada a ninguém. Estão ouvindo? A ninguém!
— Sua mãe estava certa. Foi bom para mim. Eu sei o que fiz e o que não fiz. Fiz minhas pazes com o Benji e com o que aconteceu.
— Está esperando o quê? Uma salva de palmas?
— Você visitou o Benjamin?
— O que acha?
— Ano que vem eu estarei aqui. Feliz Natal.
— Eu não vou pedir desculpas!

 

*Wilson Júnior, 29 anos, escritor. É apaixonado por ficção científica, fantasia, cultura pop e todas as formas de narrativa. Decidiu começar a escrever após uma palesta na Bienal Internacional do Livro do Ceará de 2014, de lá para cá vem dedicando a sua vida a literatura, seja escrevendo ou divulgando literatura com seu coletivo no site Escambau.org.