Editora Dummar

O Himalaia cresce a cada ano, por Iana Soares

Há 70 milhões de anos, duas placas tectônicas se chocaram e formaram a cordilheira do Himalaia, uma das mais jovens cadeias de montanhas, localizada na Ásia. De acordo com um provérbio hindu, assim como o orvalho seca com a luz da manhã, também somem as preocupações do homem ao ver o Himalaia. Eu nunca vi, mas a informação de que o relevo continua crescendo um centímetro a cada ano, em média, foi a poesia que quase salvou meus dias.

O Monte Everest, que é parte do Himalaia e também o ponto mais alto do mundo, já ultrapassa os 8 mil metros de altura. Imaginem o tamanho do impacto para que ele começasse a existir. Se por um lado há um processo constante de erosão que busca apequenar as montanhas, por outro um movimento segue tensionando as duas placas (podemos entender como corpos, ideias, vidas). O choque inicial começou quando não havia um ser humano sobre a Terra e ainda gera uma força incrível. A matemática final implica sempre em crescimento, apesar da gravidade, dos ventos, do tempo, de tudo.

Proporcionalmente, o Himalaia cresce como crescem as unhas. A Terra tem, aproximadamente, 4,54 bilhões de anos. Fiz 30 há dois meses. Outro ano começou. Uma hora dessas já rascunharam infinitas listas ou optaram por não fazer nenhuma resolução. Há os que acreditam que é só mais um e quem arrisque apostar que será o melhor da vida. Entre a ciência e o imponderável, a única certeza que tenho é que o Himalaia se fará maior, mesmo que eu não veja, mesmo que ninguém comente. Todo o resto é mistério.

Estarei atenta ao movimento silencioso das minhas placas tectônicas. Há sempre uma montanha que cresce entre as dores, as frustrações, as alegrias, os medos. Entre a esperança, a gratidão, a empatia. Há algo que se agiganta entre o pior e o melhor de nós. Depois de sobrevivermos aos terremotos e aos vulcões, ainda temos a chance de contemplar, encantados, a cordilheira em que nos transformamos.

*Iana Soares é jornalista e fotógrafa