Editora Dummar

Sertão em Cores

| Gratuito | Obra de Espedito Seleiro é tema da mostra Arte de Embonitar o Couro. O evento de abertura, na quarta-feira, 30, terá bate-papo com o artista e lançamento do livro Meu Coração Coroado

Quando o tempo de estiagem dá lugar às primeiras chuvas, a paisagem do sertão se veste de novas cores e formas. Seu Espedito Seleiro, que tem tanto gosto de ver um inverno bom banhar o seu Cariri, aprendeu a ver nas árvores “floradinhas” o ofício que carrega desde a infância: embonitar o couro. Cores, formas, texturas e traços cheios de detalhes compõem o trabalho do artesão, hoje reconhecido Mestre da Cultura e cuja habilidade chama a atenção de diferentes olhares. A partir de quarta, 30, uma parte de seu talento poderá ser visto no Espaço O POVO de Cultura e Arte.

A habilidade com o trabalho manual Seu Espedito herdou do pai. Como toda a família, o filho mais velho dos 11 rebentos de Seu Raimundo Seleiro nunca “deu pra ser vaqueiro”. E talvez por isso o significativo reconhecimento de hoje seja fruto de sua teimosia e apreço pela criação minuciosa das peças. “O couro, pra mim, foi tudo pra minha vida e ainda tá sendo. A coisa melhor da vida é fazer o que gosta, você nunca vai ter preguiça de trabalhar, nunca vai se encostar, você tem o gosto de fazer”, descreve.

Aos 79 anos, seu Espedito ainda conserva o mesmo hábito desde a infância: acorda ainda “de madrugadinha” para se dedicar ao trabalho de criação dos moldes e das tintas usadas nas peças que são produzidas diariamente em seu ateliê. Com jeito sereno e conversador, ele coordena uma associação familiar de produção composta por 25 pessoas, entre filhos, netos, sobrinhos, noras e genros. “Do jeito que você pega uma carta e vai escrevendo, do mesmo jeito é eu quando faço uma peça. Eu nasci nisso e continuo passando pros netos, filhos…”, conta.

A exposição sobre a obra de Espedito traz 17 modelos de peças como calçados, acessórios e objetos de decoração. Haverá também itens disponíveis para venda de cada modelo exposto. De acordo com Regina Ribeiro, editora-executiva da Editora Dummar, o trabalho de curadoria da mostra foi feito pelo próprio Espedito. “O caráter dessa exposição é trazer a Fortaleza o que está na loja de Nova Olinda para que as pessoas conheçam a obra, mas também possam comprar os itens”, explica ela. A mostra segue até 11 de fevereiro, das 8h às 20 horas, com visitação gratuita.

A ideia de realizar o evento, lembra Regina, surgiu ainda durante o lançamento da CBN Cariri, em dezembro do ano passado. “Acredito que a conexão entre o O POVO e o Cariri já se estabelece há tempos, mas agora está sendo renovada”. Enquanto artista que mudou de patamar o artesanato do couro, ele representa, para ela, a força da cultura popular do Nordeste. “Essa abertura para o mundo também transformou Seu Espedito. Ele agora entendeu que o trabalho autoral tem valor de mercado. E ele segue cada vez mais inovador e criativo”, completa.

Na abertura da exposição, Espedito Seleiro será entrevistado pelo jornalista Demitri Túlio, do O POVO. A conversa abordará a vida do artesão, além de sua trajetória profissional e o reconhecimento do seu trabalho ao redor do mundo. “Ele tem um jeito muito quieto de homem do interior, mas tem histórias ótimas para contar. E colocá-lo para conversar com o Demitri é pôr em cena dois bons contadores de histórias”, pondera Regina.

Na ocasião, também será lançado o livro Meu Coração Coroado, autoria de Eduardo Motta, pela Editora Senac, com sessão de autógrafos. A obra esmiúça a arte de Seleiro, além de mergulhar nas histórias gravadas a ferro, fogo, punhal e bala por tantos vaqueiros, cangaceiros e ciganos que povoaram o interior do Nordeste no século XX. Mineiro radicado no Rio Grande do Sul, Motta visitou três vezes Nova Olinda, cidade onde seu Espedito mantém seu ateliê, para conhecer de perto o ofício e a rotina do artesão.

SERVIÇO:

Espedito Seleiro, Arte de Embonitar o Couro

Quando: abertura na quarta, 30, às 19 horas. Visitação todos os dias até 11 de fevereiro, das 8h às 20 horas

Onde: Espaço O POVO de Cultura e Arte (avenida Aguanambi, 282 – Joaquim Távora)

Acesso gratuito

*Este texto, de autoria da repórter Ivig Freitas, foi publicado originalmente no caderno Vida & Arte, do jornal O POVO

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