Editora Dummar

Um quarto de guardar céu, por Marília Lovatel

Chovia. Que chova. Que o céu se espalhe, enquanto pode. Aproxima-se a hora em que ele caberá dentro de um quarto. Um céu entre quatro paredes. Uma caixinha de música. Continente físico para abrigo de etéreo conteúdo. Ela acompanha as gotas bailarinas em coreografia aérea. Pas de deux de água e vento, na confusão de imagens e pensamentos. Através de uma cortina de vidro, outro par de olhos vê o mesmo tempo. Tempo denso. O peso das circunstâncias como moldura do sentimento, sem a qual se anula a gravidade sobre os corpos, impedidos de levitar. No minuto previsto, ele abre a porta para o céu entrar. A porta é fechada atrás dela. O mundo aguarda do lado de fora. Mãos se embebem umas das outras, tornam palpável o encontro de almas e corpos. Experimentam, experimentam-se, imersos na atmosfera celeste que tudo diviniza. Provam no outro o gosto impregnado de céu. Provam-se, provam-se os limites do sentir. Adormecem de exaustão ou por se deixar embalar na cantiga de chuva que lhes ressoa nos ouvidos. Despertam. Gastam-se um pouco mais. É muito céu em pouco tempo. E se despedem com a mesma leveza com que se recebem. São serem flutuantes. À porta aberta, o céu se liberta no mundo com a força da ventania retesada. E resvala no mar agitado de ondas que descontam na areia o inconformismo com o céu à solta. Ainda assim é um lamento tão inválido quanto um guarda-chuvas invertido num sopro. É um sopro, eles o sabem. Sem antes. Sem depois. Sem nome. Sem definição. Sem quando. Sem nada, a não ser um quarto de guardar céu que a dois pertence.

*Marília Lovatel nasceu em Fortaleza, em 1971. É mestre em Literatura pela Universidade Federal do Ceará. Publicou dez livros, entre eles “Memória das Coisas”, “Coração de Mosaico” e “Olhos da Janela”, pela Editora Dummar. Em 2017 foi finalista do premio Jabuti com o livro “A Menina dos Sonhos de Renda” (Editora Moderna).

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