Editora Dummar

Gratidão não é uma palavra, por Iana Soares

Jeff, um amigo norte-americano de Maine, andava 16 quilômetros com as duas mãos unidas nas costas. Naquele gesto, o equilíbrio de toda a galáxia estava nos dedos entrelaçados. A cabeça mirava o céu, e os riscos dos aviões lembravam que o homem conseguiu ser leve ao ponto de conseguir voar. Às vezes, ultrapassava o Jeff, mas desacelerava o passo para me conectar, por alguns metros, à possibilidade de encontrar, no movimento, um sentido, uma resposta universal, um mantra secreto. Era bonito vê-lo caminhar.

Ainda que agora esteja ao lado do Cocó, a imagem de Jeff à beira do rio Llobregat, quase dois anos atrás, iluminou meu dia. Quando cravei as unhas na mão, por desespero, lembrei do gesto. A conexão silenciosa aconteceu de forma simples e consegui sossegar ou quase. Pasito a pasito, suave, suavecito, voltei a caminhar. Tem dias que a gente se salva.

Joguei para o Universo que cortaria o cabelo em caso de graça alcançada. Podia ter pedido para Santa Teresinha, mas me lembrei das imagens do telescópio Hubble, pelas quais venho nutrindo certa obsessão. Pensei que poderia haver qualquer coisa, até mesmo uma Deusa, um Deus ou nada, só a crença e nem isso, que ajudaria na estratégia ancestral de cultivar esperanças. Alcancei e cortei. Não pela tesoura do desejo, mas pela explosão de uma estrela, a formação de uma nebulosa e uma surpreendente mudança na rota do meu planeta particular.

Segunda é dia de gratidão, como todos os outros dias podem ser. Não me refiro à flor lilás do Facebook nem às mensagens prontas via WhatsApp. Falo dessa coisa que nos preenche de um jeito imenso e indizível, anterior ao desgaste da palavra. Segunda é dia de escutar Bethânia com os pés no mar e abraçar, sem nada pedir, só agradecer ao universo e a todos que estiveram aqui. Em espanhol, idioma que falava com o Jeff, “muito obrigada” é “muchas gracias”.

Muitas graças.

*Iana Soares é jornalista e fotógrafa