Entre Aspas

E fez-se mar

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Não, Amélia não era mulher de verdade. Ela não sabia quem ela era, não tinha identidade, não tinha origem, para ela, nasceu de um susto, da hora pra outra.  O que podemos dizer de Amélia é que ela tem medo, muito medo da vida, das coisas das surpresas, dos desencontros, principalmente dos desencontros. Sabe-se que ela tinha um marido, ou um namorado ou um ficante, um rolo, algo ou alguém que divida os anseios da vida humana, porém, ela foi fraca consigo mesma e deu cabo no seu romance.

Descobriu que estava sendo traída, eu como um observador de sua vida, digo que ela fez por onde. Era vaidosa, muito vaidosa, tinha todas as características aversas à música “amélia que era mulher de verdade…”, ela não era mulher, ela era um ser humano, não pretendo aqui rotulá-la e se acostume, é tudo assim mesmo, tudo abstrato, tudo nas entrelinhas.  Após descobrir a traição do marido, enlouqueceu de vez, os medos fizeram morada em seu pensamento, dia e noite, Amélia não era mais a mesma, a mulher luxuosa, vaidosa e pedante que todos os moradores da rua do Céu viam todos os dias.

Agora estava com um aspecto fúnebre, tenso, caído. Os pés descalços todavia,  eram colocados dentro de sandálias japonesas tão velhas,  tão velhas de não serem usadas. As roupas estavam cada vez mais piores, o cabelo nem se fala, seu aspecto era de morta. Eu observei a criatura até o seu último dia de vida, pois na manhã de uma quinta-feira, de um mês de janeiro, Amélia pulou de sua sacada, que ficava no vigésimo andar de um prédio antigo no Centro. Foi notícia, mulher comete suicídio, mas antes ela deixou um recado, não sei se foi para mim ou para você, mas deixou.

No birô marrom que ficava perto do banheiro daquele apartamento, n°16, encontrei uma carta, digo, um bilhete e dizia o seguinte: “Matei o meu amor, o meu único amor, cometi um crime passional, por isso dei a mim mesma a sentença, morri por amor, é a pior morte, beijos, Amélia”. Me indaguei várias vezes, onde, onde ela colocar o corpo do marido, do amante, do ficante? Não soube responder. Eu sou a resposta, pois eu, o observado de Amélia, era o mesmo que dias antes rolava com ela na cama de solteiro que ficava no seu quarto. Ela não me matou, ela se matou, ela foi embora, pensando que tinha acabado comigo, ah Amélia, quanta saudades de ti, sua tonta, morreste sem antes me dizer: porque enlouqueceras tão rápido, foi por amor? por burrice? pra chamar a atenção?

Hoje, sou eu quem faço as cerimônias da casa, o plano mudou, a figura mudou, hoje eu estou aqui, aguardando ansiosamente a volta de Amélia, que era minha mulher de verdade.

 

 

 

Texto: Eduardo Sousa || Imagem: Internet

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