Entre Aspas

O beija-flor e ela

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-Quero encontrar o meu beija-flor hoje, nesse domingo de carnaval.

Falou para si mesma, de dentro para fora, dentro do seu quatro azul arrodeado de pôsteres de seus ídolos: Frida Kahlo,  Ney Matogrosso, Cazuza. Fotos de seus dez anos de idade também faziam parte da decoração, assim como uma instante cheia de miniaturas, bonequinhos pequenos, souvenires que ela acumulava pelas suas viagens e presentes de amigos e parentes.  Tinha tudo que uma garota, ou posso dizer mulher ?, de vintes anos poderia ter. Faltava algo, algo que nem ela mesma sabia o que era, não tinha nome, queria descobrir algo neuf, algo que lhe surpreendesse.

Domingo de carnaval, segundo dia de festa, todo mundo eufórico, querendo dança, beber até cair, ela queria cair, mas queria cair de amor, de prazer, de felicidade. Resolveu entrar no banheiro, antes colocou sua playlist do celular para tocar e foi ao encontro da água, nada de quinze minutos de banho, nessas épocas de escassez, quatro ou cinco minutos estava ótimas, bastava passar mais perfume e ficar bela para o possível encontro com o beija-flor. No banheiro ela acompanhava a voz de Cazuza,”a nossa música nunca mais tocou”, ela queria alguém e o alguém queria ela. Então, pulemos para a segunda cena.

O alguém saiu de casa sem destino, passaria na casa de um amigo para assistir uns dramas americanos, comer pipoca, tomar refrigerante e conversar besteiras. Quando chegou na porta da casa do seu friend, o encontrou todo fantasiado, estava  com a roupa de pierrot, estava atrás de encontrar a sua colombina. Ficou muito desapontado pois não tinha planos nenhum de cair na folia do carnaval e muito menos ir para algum bloco desses de rua. Mas o destino quis assim, ele foi,  ela, do outro lado da cidade, ela tinha terminado o banho,  passado batom vermelho, feito delineado tipo gatinho e ido para o bloco, encontrar sei lá quem.

O bloco recebeu como um pagamento do céu, uma grande chuva, uma torrencial chuva, pessoas corriam para lugares cobertos para se protegerem, foi aí que o alguém beija-flor encontrou a sua rosa. Ela e alguém se beijaram, a trancos e barrancos, a empurrões e água vindo do céu, beijaram-se, ela se envenenou com o sabor dele, isso foi recíproco,  ele f icou espantadíssimo com o seu jeito, com tudo seu, seu cabelo, suas tinhas na cara, tudo, até a argolinha no lóbulo esquerdo. Foi lindo, os dois caíram no chão, na chuva, em meio ao bloco do funil, o carnaval terminou, mas eles…. ah, eles continuam por aí, ela e alguém , tendo como plano de fundo, codinome beija-flor.

 

 

 

 

Texto: Eduardo Sousa|| Imagem: Internet

 

 

 

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