EU SÓ LAMENTO

Cinco diretoras que demoraram anos para lançar um novo filme

Para os cineastas, os motivos que levam à demora em lançar um novo filme, especialmente quando são do cinema independente, podem ser inúmeros. Se a situação geral é ruim, ela piora consideravelmente quando estes cineastas fazem parte de um grupo minoritário. Mulheres, pessoas LGBTQ, não-brancos, enfim, são minorias sub-representadas na frente e atrás das câmeras. Na lista a seguir, elencamos cinco diretoras (de Patty Jenkins, na foto, responsável pelo blockbuster Mulher-Maravilha, à brasileira Ana Carolina; todas elas brancas, vale ressaltar) que enfrentaram longos períodos – que chegam a ultrapassar uma década – entre o lançamento de seus filmes.

Lucrecia Martel – intervalo máximo de nove anos

A argentina é considerada, hoje, um dos principais nomes do cinema de autor em escala mundial. A estreia de Lucrecia se deu em 2001, com O Pântano, selecionado para o Festival de Berlim. Já os dois projetos posteriores da cineasta, A Menina Santa (2004) e A Mulher Sem Cabeça (2008), tiveram suas premières no Festival de Cannes. A diretora tentou levar para as telas uma adaptação da HQ O Eternauta, mas o projeto fracassou. O filme seguinte, Zama, foi oficialmente anunciado em 2012, mas só estreou em setembro deste ano, no Festival de Veneza, de onde saiu como um dos mais elogiados. Recentemente, Zama foi escolhido para representar a Argentina na disputa do Oscar de Melhor Filme em Língua Estrangeira de 2018.

Rita Azevedo Gomes – intervalo máximo de 12 anos

Das listadas, a portuguesa é, talvez, a menos conhecida, apesar de ser dona de uma das carreiras mais interessantes. Rita estreou na direção de longas em 1990, com O Som da Terra a Tremer. Apesar de ter construído carreira também nas artes gráficas, ter trabalhado na Cinemateca Portuguesa e se envolvido com projetos de teatro e ópera, a cineasta só dirigiu um novo filme 12 anos depois, Frágil Como O Mundo (2002). Sobre a demora entre os projetos, Rita afirmou em entrevista que precisa “de tempo para arranjar condições técnicas e é muito difícil fazê-lo sem dinheiro”. A filmografia da portuguesa é completada pelos longas A Colecção Invisível (2009), A Vingança de Uma Mulher (2012) e Correspondências (2016).

Patty Jenkins – intervalo de 14 anos

O primeiro filme da cineasta foi Monster – Desejo Assassino, lançado em 2003, um drama de orçamento modesto, mas que alçou sucesso comercial e de crítica. Além disso, o filme valeu à atriz sul-africana Charlize Theron sua primeira indicação e vitória no Oscar. As resenhas positivas e as láureas conquistadas seriam bons indicativos para o seguimento da carreira de Patty, mas não foi isso que aconteceu. Após Monster, a diretora passou 14 anos trabalhando em projetos pontuais na televisão norte-americana até lançar o próximo trabalho: nada menos do que Mulher-Maravilha, que até agora arrecadou mais de U$820 milhões. O lado bom é que o próximo projeto de Patty já tem data marcada: a continuação da saga da heroína, prevista para 2019.

Ana Carolina – intervalo máximo de 14 anos

Segunda brasileira da lista, Ana Carolina estreou como diretora de longas com o documentário Getúlio Vargas (1974). A primeira ficção, Mar de Rosas, veio em 1978, abrindo uma trilogia composta ainda por Das Tripas Coração (1982) e Sonho de Valsa (1987). Depois da célebre tríade, a cineasta só conseguiu dirigir um novo projeto 14 anos depois, em 2001, quando lançou Amélia. O filme seguinte chegou pouco depois, indicando uma bem-vinda continuidade na carreira: a cinebiografia Gregório de Mattos (2003). No entanto, Ana Carolina passou por um novo período longe da direção, que acabou somente em 2014, com A Primeira Missa, ou Tristes Tropeços, Enganos e Urucum. Curiosamente, o filme fala, justamente, sobre as dificuldades em se filmar e lançar um longa no Brasil. Em julho, a diretora conversou com o caderno Vida&Arte sobre isso.

Suzana Amaral – intervalo máximo de 16 anos

O primeiro filme da brasileira foi lançado em 1985 e é um marco do cinema nacional: A Hora da Estrela, adaptação para os cinemas do livro de Clarice Lispector lançado em 1977. Contando a história da virgem e ingênua Macabéa, interpretada pela paraibana Marcélia Cartaxo, o longa saiu do Festival de Brasília daquele ano com 6 prêmios e, em 1986, foi selecionado para o Festival de Berlim. Na capital alemã, ganhou 3 prêmios, entre eles o de melhor atriz para Marcélia. Suzana só voltou ao cargo de diretora de um longa 16 anos depois, com Uma Vida em Segredo (2001). O filme seguinte dela, Hotel Atlântico, estreou em 2009. A cineasta se envolveu na produção de uma adaptação de O Caso Morel, de Rubem Fonseca, que não foi para frente por conta de problemas financeiros. 

É tanta coisa pra lamentar que, honestamente, eu só lamento.

Novo filme

P.S.: Em meio à produção dessa lista, nos deparamos com a lista 20 long-awaited comebacks by female directors – ou 20 esperados retornos de diretoras mulheres –, onde você pode encontrar mais 18 exemplos, já que ambas listaram Lucrecia Martel e Patty Jenkins. Indicamos, também, um estudo publicado em fevereiro da Escola de Comunicação e Jornalismo Annenberg, da Universidade do Sul da Califórnia, que trouxe diversos dados e indicativos das situações

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