Fora da Ordem

Linn da Quebrada toca seu “terrorismo de gênero” em Fortaleza

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Cantora faz show neste sábado, 5, no Órbita Bar, na comemoração de 1 ano da festa Bateu! (Foto: Nubia Abe)

Linn da Quebrada entende seu propósito na arte. Da “bixa preta” à “trava feminina”, a paulistana de 26 anos narra histórias de quem se descobriu em transformação constante para perceber a necessidade de ocupar espaços. Filha de uma empregada doméstica alagoana e de rígida criação religiosa, a artista trans encontrou no funk a possibilidade de quebrar paradigmas de corpo e gênero. Ela trabalha no álbum de estreia Pajubá, batizado em referência ao vocabulário LGBT, com previsão de lançamento para setembro próximo. O disco custou R$ 49 mil levantados por meio de financiamento coletivo.

Cantora, compositora, performer e atriz, lançou, neste ano, os singles “Bixa Preta” e o recente “blasFêmea”, sua primeira experimentação audiovisual. O vídeo da música teve direção e roteiro assinados pela própria artista, com co-direção de Marcelo Caetano. A parceria com o cineasta já vem do longa-metragem “Corpo Elétrico“, no qual atuou. O filme estreia neste domingo, 6, no Festival Cine Ceará. Mas antes, ela se apresenta no Órbita Bar, neste sábado, 5, e promete muita “bixarya, bunda no chão e corpos suados”. Em uma conversa rápida com o Blog Repórter Entre Linhas, Linn fala sobre a produção do disco, conceito artístico e as possibilidades no meio audiovisual.

Você está em estúdio desde o último dia 10 gravando o “Pajubá”. Como está sendo esse processo?

Está sendo fantástico, a realização de um sonho! E ter conseguido tudo isso graças aos meus fãs, que apoiaram meu financiamento coletivo, que me acompanham o tempo todo nas minhas novidades todas, isso deixa tudo mais especial. É um disco nosso, feito em conjunto e é lindo e muito importante saber que não estou sozinha nessa​.

Algumas músicas falam de ser mulher, travesti nesse contexto de violência urbana e transfobia. Esse conceito continua no “Pajubá”?

Com certeza, o disco se encaminha pra isso, da gente falar entre a gente, por nós e para as nossas. “Pajubá” é dialeto, é transformação e possibilidades. Não canto histórias pra boy dormir. Mas grito para tirá-los do lugar. O corpo sempre foi algo que me instigou. E eu sentia que esse era o lugar mais apropriado para se falar. A partir do meu corpo. Dos meus afetos, das minhas relações, dos meus desejos.

Você dirigiu e escreveu o clipe de “basFêmea | Mulher”. Já era uma vontade sua se envolver diretamente no seu produto audiovisual ou foi uma necessidade que você identificou no decorrer do processo?

Na verdade foi algo que foi surgindo. Eu venho do teatro, também atuo como performer e tudo isso veio antes da música. ‘blasFêmea’ também apareceu naturalmente. Assim como encontrei no funk mais um lugar de resistência e criação, o audiovisual se mostrou um espaço importante pra eu reinventar narrativas. blasFêmea é sobre a união e a conexão de mulheres, independente dos corpos em que se encontrem, é sobre essa rede de proteção e acolhida que deveria existir cada vez mais entre nós.

Você está no elenco do filme “Corpo Elétrico”, que será exibido no Cine Ceará. Você pode falar sobre sua participação no filme?

​Eu amo atuar, faz parte de mim, de quem sou e para onde quero sempre levar minhas inspirações e desejos artísticos. Ter feito parte deste filme foi muito importante. É uma história que se conecta muito comigo e o Marcelo Caetano soube contá-la muito bem.​

Você chegou a afirmar que se considera uma “terrorista de gênero”. O que isso significa e o que esse posicionamento representa para você?

​Meu corpo carrega muitas potências e eu busco possibilitar todas elas por meio da minha arte. ‘Terrorismo de gênero’ vem disso, dessas transformações contantes que me permito e consequentemente transformações as quais o público também se permite. Hoje em dia eu já acho que até este termo em si já se transformou, estou mais para ‘pastora Linn da Quebrada’ atualmente, porque sinto cada vez mais que meus shows são cultos para quem se enxerga e se encontra ali. Estamos todas cantando numa mesma energia, numa mesma sintonia, isso é único e especial. É um espaço nosso, onde nossos corpos são o que queremos e sem nenhum tipo de pudor ou proibição.​

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