Fora da Ordem

Memórias à mesa

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Recentemente li o livro “Escola dos Sabores”, de Erica Bauermeister. Ganhei de aniversário há pelo menos três anos. Estava ali, perdido na prateleira. Resgatei o presente sem pretensão, mas a história foi me inundando de lembranças.

A obra conta a trajetória de oito alunos que iniciam um curso de culinária no restaurante da protagonista Lilian. Uma mulher que, ainda criança, aprendeu a cozinhar como forma de resgatar a mãe depressiva devido à separação do marido. O amor pela culinária fez Lilian descobrir mais. A chef percebeu que a comida pode curar o emocional das pessoas. Para mim, a leitura acabou se transformando em um enredo cativante e um percurso pelos meus afetos.

Cada capítulo vai desvendando os caminhos dos personagens e trazendo receitas e memórias. É bem aí que a gente se flagra nas próprias recordações, aquelas que passam pelo estômago e impregnam o coração.

Fui levada aos períodos da infância, quando comi pela primeira vez pudim. Minha mãe abre a geladeira e diz “prova aqui”, oferecendo uma colher com um pedaço da iguaria. A memória vem doce, com um misto de estranheza infantil pela textura mole que derretia gelada na boca.

Sigo então para os bolos de Coca-Cola, receita que aprendi vendo minha mãe batendo a massa na forma que era da minha bisavó. Uma travessa azul de cerâmica bem pesada, com o fundo gasto pelas colheres de madeira. A mão girando ao misturar ovos, manteiga, farinha, sem saber ainda o que era uma batedeira. Cresci com bolo batidos à mão. Primeiro minha avó com seu Luís Felipe (o preferido dela), depois minha mãe e sua massa de Coca-Cola e, por fim, eu e os adorados bolos de chocolate.

Da infância lembro principalmente das receitas doces, do pavê com biscoito champanhe, do doce de mamão (inigualável) da Avó, do sorvete de abacate… E também dos períodos festivos.

No livro, os alunos aprendem a saborear o significado do Dia de Ação de Graças, cozinhando lentamente os pratos. Lá em casa, recordo os inúmeros natais, nos quais a ceia da meia noite era preparada durante todo o dia 24 de dezembro. O peru, que gastava quase um botijão de gás esperando o termômetro pular para fora ao indicar o fim do cozimento; a farofa temperada com os miúdos da ave; o arroz branco soltinho decorado com passas e ervilha; a salada de batatas, cenoura, azeitona e maionese. E a sobremesa? Parecia obra de arte! Um mosaico de gelatinas multicores, cortadas em pequenos cubinhos e misturadas com leite condensado. Coisa de artista, coisa de minha mãe.

Seguindo na leitura, surge uma memória especial. A feitura do café da tarde! Uma cena que ainda parece poesia para mim, na minha casa e nos lares que visito. Todo santo dia, no meio de tarde, vejo minha avó encostada na pia, a fumaça subindo enquanto coava o café no pano. O cheiro inundando a cozinha, a casa, a alma. É de uma beleza singela que só os amantes do café conseguem dimensionar. É atemporal.

Olhando assim, nossa vida passa mesmo pelas memórias do estômago, essa escola de sabores e afetos. Cresci com minha avó colocando a mesa para comermos juntas, mesmo que só eu e ela, às vezes nós duas e meu primo, outras com alguma visita. Considero ainda mágico o ato de pôr a mesa, dedicando tempo para uma refeição conjunta. Um hábito que tem escasseado. Uma pena…

O tempo moderno deixou as refeições mais rápidas, automáticas e, muitas vezes, solitárias. Comemos resolvendo problemas, engolimos enquanto trabalhamos, damos uma garfada de olho no relógio. Nem lembramos mais do cardápio, das histórias que vêm junto com a preparação dos pratos. Se antes colecionávamos histórias, hoje nos falta memórias à mesa.

Por isso, defendo que, pelo menos uma vez ao mês, tenhamos aquele tempinho para uma mesa posta, para conversa jogada fora e talheres dispostos sem pressa. Uma mesa de café, almoço, ou ainda um simples jantar com sopa. Ah, sopa! Outra boa recordação…

É na mesa que mastigamos as histórias que cabem no peito, dividimos nossas memórias e bebemos o sumo de uma vida simples e preciosa.

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