Fora da Ordem

Mostra teu mundo

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Mostra teu mundo

Outro dia minha amiga disse que apresentou o mundo para a sobrinha. Levou a garota de dois anos e meio para ver o mar pela primeira vez. Desde então, a pequena não hesita: “Tia, quero ver o muunndo”. E arregala os olhos e fala redondo a palavra que cabe toda uma vida.

Mostrar o mundo a alguém é um desses atos revolucionários. Por momentos, o outro usa nossos óculos para ter do lado de cá, enquanto a gente se apruma no muro para espiar um pouco o lado de lá. Percurso de coragem, sem volta, sem destino. Não se fica o mesmo. A gente fica maior. Coisa de sentir, juntar, despir, navegar.

O mundo é o mar, uma cidade do interior, a luz das estrelas. Do tamanho da nossa criança, do quanto a vista de dentro alcança. Por uma janela, por uma fissura, o vento que sobra, a brisa que dá e passa.

O mundo é o mar. A linha que nos contorna quando a gente salta sem rede.

Me mostra teu mundo e eu vejo cores antes não sentidas. Tateio o que dizer, escuto com as lentes de aumento. Tudo isso pra também te chamar: vem mostrar teu mundo pra mim.

Me diz quem você é e as cores que te encantam, o que te surpreende entre as tantas luzes. Qual te chama para perto? Me mostra teu jeito de pintar a vida, cheirar o vento, pegar os sonhos com a mão. Mostra o que te faz nó e o que desentrelaça facilmente quando queres.

Mostra teu jeito de flertar com as flores, de errar os planos e adiar as dores. Me diz o quanto é quente e doce a noite e as manhãs.

Do meu plano vejo tu e muitos outros. Pelo teu jeito de andar, imagino quantas idas e voltas. E me surpreende a forma como é rico o teu dizer das curvas, o teu narrar o mundo e as criaturas.

Me mostra teu mundo, eu te mostro meu e a gente faz uma festa pra juntar toda essa bossa que dá poema e canção. Ou pode não dar em nada e restar ali apenas aperto de mão. O encontro, duvido, não foi viagem perdida. Foi descoberta. Uma aventura calçar teus sapatos, mesmo que breve, mesmo que não mais.

E se vai para longe, já me diz daí, manda notícias. Mostra teu outro mundo, de novo, e quantas vezes for reinvenção. Permanece em mim a sede de ver além mar.

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