Fora da Ordem

Conheça os escritores cearenses que formam a primeira temporada do podcast Antologia

Extrapolando fronteiras entre diferentes plataformas e estimulando o consumo de literatura autoral cearense, O POVO lançou o podcast Antologia. Produzido pelos jornalistas Rubens Rodrigues e Isabel Costa, o Antologia integra o projeto Letras&Livros, do Vida&Arte.

O produto, apresentado por Isabel, traz uma proposta diferente: os episódios abrem com a leitura de contos de ficção dos autores convidados seguido por um debate sobre temas relacionados ao universo literário, como mercado, escrita e processo criativo.

Cinco escritores cearenses integram a primeira temporada do Podcast Antologia: Zélia Sales, Antônio LaCarne, Ayla Andrade, Bruno Paulino e Argentina Castro.

Confira alguns trechos dos contos lidos no Podcast Antologia e escute as produções, que foram lidas pela atriz cearense Jéssica Teixeira:

ZÉLIA SALES

“Um homem sem mãos e sem rosto, de jaleco branco, de luvas, de máscara, de óculos. O braço pesado. Senti a agulha enorme rasgando minha gengiva, tocando o osso, parecia atravessar meu nariz, o gosto travoso de sangue na boca. Uma lágrima desceu queimando minha cara. Ele não via nada, não sentia nada, conversava com a atendente sobre um garrote que havia nascido na fazenda. O alicate, o puxão, minha cabeça indo junto, um tufo de gaze. “Pronto, a próxima”. Me empurrou pela nuca cadeira afora. Tinha a sensação de que havia um coco dentro da boca”.

ANTÔNIO LACARNE

“Em um devaneio espiritual amargo, Arlete havia esquecido como escrever o próprio nome. Após o almoço, dançou sozinha na sala de casa. Já não tinha amantes, não tinha amigos, não tinha filhos ou uma casa bem localizada. Amores pré-históricos revividos mentalmente se transformaram em ilusões no aconchego de seu quarto escuro”

BRUNO PAULINO

“As histórias sobre as almas penadas do açude grande começaram há muito tempo, reforçava o velho narrador. Num antigamente que se perdeu. Exatamente no dia em que um casal de crianças, filhos do bodegueiro Zé Lins, Mariazinha e Pedrinho, sumiram misteriosamente dos olhos da mãe zelosa que sempre foi Dona Lúcia”.

ARGENTINA CASTRO

“A mãe, que vivia de faxinar as casas de moradores que viviam em condições menos difíceis, tinha uma estatura pequena e os cabelos de um tom amarelado difícil de entender se, pela tinta, se pelo sol. E foi com as mãos puxando os cabelos que recebeu a notícia.”

AYLA ANDRADE

“As pessoas ao redor, espremidas do térreo ao quarto andar, não sentem medo. As pessoas ao redor não desejam que o elevador despenque. Aperta o três aí pra mim. Sobe e desce. Bom dia. Eu sinto medo. Ela quase vê o vão do elevador sumir embaixo dos pés. O elevador panorâmico de onde vê-se também o chão abaixo. Sobe e desce. Desce rápido. A música acompanha porque não lhe sai da cabeça.”

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