Fora da Ordem

Potyguara Bardo: “A experiência psicodélica é uma viagem dentro de si”

Drag queen natalense Potyguara Bardo no jardim do Theatro José de Alencar (Foto: Mateus Monteiro)

A viagem psicodélica proposta por Potyguara Bardo em seu álbum de estreia, Simulacre (2018, DoSol), é um convite de rompimento ao que vem sendo feito na música pop nacional. E isso é assumido, em tom de provocação, pela drag queen natalense criada pelo artista José Aquilino.

O passeio pelos ritmos regionais que tem pautado o movimento musical e ganhado forma nos últimos anos aqui é só base para um chamado estético e conceitual. Nesse domingo, 13, Potyguara Bardo lançou clipe ao vivo para a música “Plene”, uma parceria com Luísa Nascim, da banda Luisa e Os Alquimistas.

Nascim também assina a coautoria da faixa que aborda o conceito de morte do ego e plenitude holística tão característica do trabalho.

Em setembro último, Bardo se apresentou pela primeira vez em Fortaleza, no jardim (projetado por Burle Marx) do quase mitológico Theatro José de Alencar. Ela foi atração da festa Mamadeiras. Agora, se prepara para retornar ao palco do Festival Mada, tradicional no calendário potiguar, na próxima sexta-feira, 18.

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Em entrevista ao blog, ela fala sobre os conceitos que desaguaram no álbum Simulacre, a experiência de artista independente no projeto Incubadora DoSol e promete novidades ainda para este ano.

Fora da Ordem: A faixa que abre Simulacre é um aviso da viagem holística que vem pela frente. Como surgiu o conceito do álbum?

Potyguara Bardo: Eu compus “Você Não Existe” e logo em seguida tava planejando lançar “Karamba” com Kaya Conky. Quando surgiu o convite pra participar da Incubadora DoSol, eu tentei traçar uma história entre essas duas músicas. Tentei mostrar essa mudança de consciência que acontecia de uma faixa pra outra. Contar de uma forma linear os vários estados que passo durante minha experiência. A faixa inicial foi uma analogia perfeita pra esse mergulho nos níveis de consciência porque a experiência psicodélica é uma viagem dentro de si.

FDO: A teoria dos Simulacros e Simulação, do francês Jean Baudrillard, te influenciou de alguma forma?

Potyguara Bardo: Quando pensei no título do álbum, lá em 2017 quando tinha acabado de lançar “Você Não Existe”, eu não tinha lido a teoria dele. Sabia da existência. Foi mais um estalo pelo significado no geral, pelo que sei dele e da etimologia da palavra. Porque drag imita algo que não é, dependendo da perspectiva.

Seria eu fazendo uma drag, fazendo uma música que não era o que as drags no geral estavam fazendo? E brincar com o parecer e não ser. Com a referência da referência. Drag queen é uma auto referência à cultura pop. É um culto a isso de forma consciente. Então, não me ative a nada muito técnico em relação à teoria dele. Ele observou algo da natureza que se observa há milênios.

FDO: Como foi a experiência de trabalhar com a Incubadora DoSol na produção do álbum?

Potyguara Bardo: Eu tinha feito “Você Não Existe” ao longo de 2017 e tava já prestando atenção… Desde a primeira vez que eu percebi que melodias poderiam vir na minha cabeça, passei a prestar atenção em outras. Sempre fui de fazer poesia. Passei a fazer no formato musicável, com rimas e com estruturas definidas.

Quado veio o convite no fim daquele ano pro DoSol, já tinha esse acervo de composições inacabadas que me permitiram traçar o pavimento dessa história que eu queria contar. E foi muito bom porque, pra um artista independente, eu não tinha um centavo pra fazer música. “Você Não Existe” foi 100% com Dante Augusto e Matheus Tinoco confiando em mim.

Quando o DoSol me convidou, os meninos vieram também e eles convidaram Walter Nazário, que é um grande músico natalense também pra compor esse time. Foi uma experiência muito incrível.

FDO: Você tem ganhado mais popularidade com a versão de “Oasis” pelo Estúdio MangoLab. Como isso chega na artista?

Potyguara Bardo: Tem sido muito incrível o retorno que “Oasis” ao vivo tem recebido. Já tinha feito em outro momento da minha carreira, mas eu tava mais verde em “n” fatores. Quando fui ao Rio, o MangoLab me convidou pra participar do Ao Vivo e estrear a terceira temporada deles. Eu não esperava que fosse ter uma repercussão tão grande porque a música tem mais de um ano. A minha evolução e a outra versão do arranjo fizeram com que a música por algum motivo funcionasse agora. Fiquei muito feliz porque foi uma das músicas mais sinceras e mais cruas do álbum. Muito bom ver que as pessoas abraçam um lado tão vulnerável meu.

FDO: O que Potyguara Bardo prepara de lançamentos para os próximos meses?

Potyguara Bardo: Tenho muitas composições inacabadas, e acabadas também. Nesse momento, tô trabalhando pra saber qual é a próxima história que vou contar, mas não prometo nada. Fiz e estão por vir. Até o final do ano saem.

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