Futebol do Povo

Os quatro dias que mudaram a história e salvaram o Ceará na Série B

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Sábado, dia 17 de outubro de 2015, fim da tarde.

O Ceará perdia para o Criciúma, em Santa Catarina, por 3×0. Era a estreia do técnico Lisca, o quinto do alvinegro na temporada, e que tinha trabalhado por três semanas com o elenco na tentativa final de arrumar um grupo completamente perdido, sem confiança e perto do rebaixamento. Não funcionou no primeiro desafio.

Sábado, dia 17 de outubro de 2015, começo da noite.

Nos vestiários do estádio Heriberto Hulse, o silêncio, expressão máxima de confissão coletiva da incapacidade de um grupo, abatido de tal forma que ninguém tinha forças para falar, buscar a reação. A sensação permaneceu no jantar. O time estava pronto para disputar a Série C e a diretoria não sabia mais o que fazer.

Domingo, dia 18 de outubro de 2015, meio do dia.

Já no hotel, no Rio, um torcedor encontrou o elenco do Ceará. Um, ninguém mais. Lá conversou com todos os jogadores e dirigentes. A perseverança e a crença chamaram a atenção, algo que os próprios atletas não conseguiam sentir, muito menos acreditar. Ainda.

Segunda, dia 19 de outubro de 2015, fim da tarde.

O elenco voltava aos treinos no Ninho do Urubu, CT do Flamengo. Lisca ali retomava o trabalho de motivação. O contato com a bola por si só também ajudava o grupo a voltar a se concentrar na partida contra o Botafogo, que ocorreria na noite seguinte. Uma nova derrota, desta vez para o líder, seria catastrófica.

Segunda, dia 19 de outubro de 2015, noite. Hotel.

Presidente recém eleito, Robinson de Castro não dormia há dois dias. Ficou pensando numa conversa recente que havia tido com o médico do filho. Torcedor do Ceará, a tese dele era de que o clube entrara num espiral de derrotas sem solução. Inconformado com aquela descrição e, especialmente, com o abatimento coletivo assustador após a derrota para o Criciúma, pediu uma reunião com os jogadores antes da preleção de Lisca.

Ali, com a presença de todas as pessoas ligadas ao Ceará que estavam no Rio, não exibiu fotos e depoimentos de esposas e filhos, mas optou por mostrar imagens da torcida alvinegra e da festa pelo acesso em 2009.  E comparou que escapar do rebaixamento em 2015 seria como um novo acesso, desta vez para a Série B.

Depois, exibiu um vídeo motivacional de cerca de sete minutos. Um trecho do filme Desafiando Gigantes. E perguntou a cada jogador, citando nome por nome, qual o nível de comprometimento, liderança e apoio ao companheiro que teriam a partir de então. A resposta foi a mais positiva possível e Lisca completou o trabalho com uma nova escalação, optando por voltar ao 4-2-3-1 já com Alex Amado entre os titulares.

Terça-feira, 20 de outubro de 2015, noite. Engenhão.

O time vencia o Botafogo por 1×0. Um triunfo surpreendente, o ponto da virada do roteiro até então escrito. Eram os primeiros três pontos dos 19 que o elenco conquistaria nos 24 seguintes. O início de uma reação muito improvável comandada por Lisca e tendo Éverson, João Marcos e Alex Amado como pilares.

Estatísticos apontavam 98% de chance de rebaixamento. Boa parte da torcida já projetava a terceira divisão, assim como a imprensa. Mas o Ceará desconstruiu a lógica e construiu um novo time em oito jogos a partir daquela noite no Rio de Janeiro, a partir daquela derrota para o Criciúma e daquela reunião que, hoje, depois de tantos erros cometidos após a conquista da Copa do Nordeste, todos que estavam presentes apontam como fundamental e não apenas uma coincidência.

Em tempo. O relato deste texto não é fantasioso. Foi construído após conversas  com atores principais dos acontecimentos. A história, inicialmente, foi contada ao vivo no programa Futebol do POVO, da TV O POVO e Esporte Interativo, pelo gerente de futebol do Ceará, Rodrigo Pastana, no começo deste mês. Aqui no blog ela está mais detalhada para que o leitor, caso interessado, possa conhecer algo fora do “clichë” da cobertura..

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