GIRO LUSÓFONO

Amor canino à língua inglesa

Quinto idioma mais utilizado na internet – quarto em número de falantes, com 250 milhões de pessoas –, presente em quatro continentes e oficial em nove países e uma região especial administrativa. Mesmo com tamanho de gente grande, a língua portuguesa ainda é deixada de lado em diversas ocasiões no Brasil, país que detém 77% dos lusófonos de todo o planeta. A promoção da língua portuguesa tem de ser prioridade não só das políticas públicas educacionais, mas também da mídia e da iniciativa privada. Há anos, a comunidade lusófona – com a liderança de Portugal – luta para incluir a língua de Camões na relação de idiomas oficias da Organização das Nações Unidas (ONU), ao lado do árabe, mandarim, inglês, francês, russo e espanhol. O espírito nacionalista, por meio do idioma, tem de ser incentivado.

O que fazer para reverter esse quadro tão desvantajoso para o português? A primeira coisa é um investimento pesado na Educação, principalmente na básica, momento propício para a fixação de ideias, conceitos e valores. O Governo tem agido, com incentivos à permanência das crianças na escola, construção de creches e até mesmo com o Bolsa Família, programa de transferência de renda que tem como um dos critérios, a frequência dos filhos dos beneficiados na escola. Mas o método de ensino brasileiro está ultrapassado e com a crise econômica e política pela qual passa o País, os investimentos têm sido poucos.

De acordo com dados do último Censo Escolar, realizado em 2015, pelo Ministério da Educação (MEC), 690 mil crianças, de quatro anos de idade, não frequentam a escola. De 17 anos, 932 mil adolescentes deixaram os estudos. Já a pré-escola, que atende crianças dos quatro aos cinco anos de idade, teve uma redução em 1% no número de matrículas, passando de 4,96 milhões para 4,92 milhões no ano passado. No Ensino Médio a situação é mais delicada. A redução no número de novos estudantes já era registrada desde 2010. De lá para cá, o índice mais baixo foi registrado agora, de 2014 a 2015, com menos 2,7%. O número de estudantes, que era de 8,3 milhões, passou para 8,1 milhões.

E se já não bastasse esse cenário ruim para a educação – consequentemente para a língua portuguesa – a iniciativa privada não colabora. Empresas, dos mais variados tamanhos e áreas de atuação, fazem uso, sem moderação, de palavras estrangeiras visando vender mais ou estar na moda. É o caso de shampoo, aloon, coffee break, shopping, outdoor, selfservice, play, off, delivery, free e tantas outras que caíram no gosto da publicidade. Será que as empresas usam estrangeirismo porque elas gostam? Não! É mais uma estratégia para vender mais, já que os profissionais do marketing e da propaganda sabem da idolatria desenfreada e vexatória que boa parcela dos brasileiros têm com o inglês, bem próxima àquela que os cães têm para com seus donos, de lamber os pés. Mas a língua inglesa não é única vilã, nada disso. O francês não fica muito atrás no quesito “paixão nacional”. É bem fácil encontrar por aí lingerie, nécessaire, rouge, papier, à la carte, buffet, champagne, croissant, menu, petit gâteauetc. Por que não usar xampu ao invés de shampoo? Por que coffee break em desprezo de intervalo? O que tem de feio falar autosserviço no lugar de selfservice? Será que fazer um delivery é diferente de fazer uma entrega? São usos desnecessários assim que contribuem para que o nosso idioma perca mais espaço internacionalmente, mesmo tendo o tamanho que tem.

Em âmbito mundial, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) luta para levar o idioma aos mais distantes lugares. Mais que isso, esforça-se para integrar os países que têm o português como língua oficial e promove a cultura e os valores comuns aos povos chamados de lusófonos. Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste são as nações que disseminam a doçura e a riqueza do quarto idioma mais falado no planeta. Contudo, dentre os integrantes da comunidade, o Brasil é o que menos tem se esforçado e dado valor às relações culturais entre os países. Acordos econômicos e energéticos pautam as agendas dos governantes nacionais. Por conta disso, pouco se sabe pelas bandas de cá dos nossos irmãos de língua. Quem é que sabe, na rua, qual é a capital do Timor-Leste? E de Guiné-Bissau? Por lá, na certa, é bem mais difícil alguém falar site ao invés de sítio.

Qual o valor da língua portuguesa? Será preciso atribuir-lhe uma quantia para que ela possa despertar interesse? Será que vamos seguir confirmando aquela lenda que diz que é preciso ser reconhecido lá fora para ter valor na terra natal? Por mais quanto tempo o Brasil – e os brasileiros – não vão se dar conta de que é por meio da língua que temos a chance de “conquistar” o mundo e não apenas pelo futebol – que, diga-se de passagem, já teve épocas melhores?

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