GIRO LUSÓFONO

Exclusivo. ORA, POIS conversa com o criador do Festival de Roteiros de Língua Portuguesa

Entre os dez finalistas desta edição, oito são brasileiros. Foto: Site Guiões

Entre os dias 2 e 4 de março, acontecerá no Cinema São Jorge, em Lisboa, a 4ª edição do Festival de Roteiros de Língua Portuguesa (GUIÕES). O evento tem como objetivo estabelecer-se como um essencial ponto de contacto entre os guionistas/roteiristas de língua portuguesa e os agentes, produtores, realizadores e investidores que poderão dar sequência ao material criado.

Com exclusividade, o ORA, POIS conversou com Luis Campos, roteirista e criador do GUIÕES, sobre as origens do Festival, os caminhos percorridos até aqui e as expectativas para o futuro. Onde houver a palavra guião (e suas variações) leia-se roteiro (e suas variações). Confira:

ORA, POIS (OP): De onde veio a ideia de produzir um evento sobre roteiros lusófonos?
Luis Campos: Sendo eu próprio guionista (ou aspirante a tal), senti que existia espaço para fazer mais e melhor pelos guionistas de Língua Portuguesa. As dificuldades que encontrei nas tentativas de contacto com produtores, a carência de diálogo e de oportunidades em torno da atividade de escrita cinematográfica, a escassa visibilidade do próprio cinema de Língua Portuguesa e alguma falta de representatividade do setor, todos esses fatores me motivaram a criar uma espécie de plataforma que se permitisse a dar voz aos guionistas de Língua Portuguesa. Ao escrever um guião, um guionista ou tem a possibilidade de o produzir por conta própria (o que é pouco provável que aconteça, dado o custo de produção cinematográfica), ou consegue convencer um produtor a interessar-se pelo projeto (o que é muito mais difícil do que o que seria desejável), ou submete o guião a concursos do gênero. Existe uma prática muito forte de submissão a concursos de guião – muito bem esquematizados e inseridos na indústria, por sinal – nos Estados Unidos da América, em Língua Inglesa, mas não existia nenhuma plataforma do gênero exclusivamente em Língua Portuguesa. Existia o Festival de Roteiro Audiovisual de Porto Alegre (Frapa), em Porto Alegre (nosso festival parceiro desde a 1ª edição do GUIÕES), mais focado em projetos da América Latina, mas não existia nenhum certame focado exclusivamente nos Países de Língua Portuguesa. Percebi que era importante atuar nesse sentido e meti mãos à obra.

OP: Por quais cidades o Festival passou até hoje?
Luis Campos: O festival nasceu fruto da vontade de uma pessoa, num determinado quarto, numa determinada cadeira, num determinado computador – como a grande maioria dos guiões cinematográficos, na verdade. O conceito do festival foi bem recebido pela comunidade onde a Squatter Factory – minha empresa e criadora do conceito – está instalada (São João da Madeira) e a primeira edição do evento naturalmente decorreu nessa cidade. Dada a impressionante escala de difusão que o festival obteve logo na 1ª edição (280 candidaturas recebidas em cerca de um mês de período de candidaturas), percebemos que era importante que o festival se deslocasse para um local de maior proximidade dos produtores de Língua Portuguesa. Apesar do interesse de algumas entidades de São Paulo em associar-se ao evento, decidimos estabelecer o festival em Lisboa desde a sua 2ª edição. Assim tem continuado, mas a receptividade local tem ficado algo aquém daquilo que seria desejável. Continuamos empenhados no reforço da visibilidade do evento e dos guionistas participantes, sendo que o festival, pela sua tipologia simplista, low cost e 100% autossustentável, poderá vir a deslocar-se para outras cidades no futuro. É importante que o festival esteja próximo de onde o interesse da indústria é mais expressivo.

OP: Em três edições já realizadas, qual o país com o maior número de vitórias? Você pode detalhar a ordem?
Luis Campos: As grandes vencedoras de todas as três edições anteriores tiveram em comum o fato de serem de origem brasileira e do sexo feminino. Não foi deliberado, assim a avaliação do júri (que é independente e individual) determinou; não é que estejamos a empenhar esforços numa expressão de representação de gênero na indústria, apenas derivou do fato de todas elas terem escrito guiões de muita qualidade, com potencial de produção e capacidade de gerar afetos por quem os leu. No primeiro ano a vencedora foi a Camila Agustini com o guião “O Homem Descalço”, no segundo foi Iuli Gerbase com “Mergulho” e no ano passado foi a Mariana Tesch Morgon com “Amém” – a mesma Mariana que, a título de curiosidade, figura novamente nos finalistas deste ano. No ano passado, tivemos nove finalistas mulheres, não pelo fato de serem mulheres, mas porque os guiões que escolhemos foram realmente aqueles que mais nos impressionaram – o que não quer dizer que fossem os melhores (existe sempre subjetividade no processo de escolha, no GUIÕES não será diferente). Este ano, temos oito finalistas homens, pela mesma razão. Tentamos manter-nos fiel à máxima que comunicamos desde a 1ª edição do festival, na qual o GUIÕES apenas privilegia duas coisas: o talento do autor e a qualidade do guião. Independentemente do gênero, do nome ou do currículo. Acreditamos que cada guião tem uma vida própria e que, no mínimo, merece o respeito da nossa consideração. Tentamos certificar-nos que o candidato reconhece esse respeito pela obra submetida – não conseguiria conceber o festival de outra forma.

OP: Nesta edição, dos dez finalistas, oito são do Brasil. Como você explica esse alto número de brasileiros?
Luis Campos: Temos tido uma participação brasileira superior a 80% das candidaturas recebidas. Não só o Brasil tem uma população muito mais significativa quando comparada com os restantes países de Língua Portuguesa – o que por si só ajuda a explicar o elevado número de participantes brasileiros – como também algumas entidades do Brasil aderiram à ideia com mais rapidez e interesse no geral. Na primeira edição do festival, por exemplo, ainda mal tínhamos lançado a fase de candidaturas e conseguimos que a Agência Nacional do Cinema (Ancine) partilhasse a informação do festival – partilha que contribuiu para um crescimento exponencial do número de candidaturas. O GUIÕES continua a ser um festival 100% independente e autossustentável através das taxas de submissão que cobra por candidatura. Não beneficia de qualquer apoio monetário ou financiamento que permita ampliar as atividades anuais de reforço à atividade de escrita cinematográfica, mas vai conseguindo existir nesta forma simplista e low cost que o tem caracterizado. Tem tido uma adesão dos guionistas muito expressiva. A pouco e pouco vamos conseguindo gerar mais interesse pelo setor dos produtores – aqueles que verdadeiramente poderão fazer a diferença com o material criado. As produtoras brasileiras, talvez pela maior dependência (ou atenção/curiosidade) pelo conteúdo, têm demonstrado maior interesse no projeto. O Brasil tem sido, sem dúvidas, o país mais ativo nesta relação com o GUIÕES. Esperemos que essa relação assim possa continuar e crescer cada vez mais – e também que o GUIÕES consiga angariar o reconhecimento de apoiantes e financiadores que permitam levar o festival para outro nível.

OP: Em alguma edição houve finalista doutro país lusófono que não seja de Portugal e do Brasil?
Luis Campos: Recebemos algumas candidaturas de Angola e de falantes de Língua Portuguesa espalhados um pouco por todo o mundo (Nova Iorque, Barcelona, Londres etc.), mas por enquanto todos os finalistas foram do Brasil e Portugal. Queremos muito aumentar a nossa capacidade de comunicação nos restantes países de Língua Portuguesa, mas a nossa microestrutura não facilita esse aspecto. O GUIÕES não tem qualquer funcionário ou membro a viver exclusivamente do festival, é promovido em paralelo às vidas profissionais dos seus intervenientes. Temos sempre que possível tentado fortalecer relações institucionais com representantes de todos os países de Língua Portuguesa, através da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) e das respectivas Embaixadas e Ministérios da Cultura, mas a verdade é que o processo não tem sido fácil nem tem dado os frutos que esperávamos (pelo reconhecimento que temos da capacidade do conceito e do potencial do festival enquanto elo de aproximação das indústrias cinematográficas dos vários países e enquanto possível plataforma de criação de negócios). Porque o GUIÕES vai existindo através da taxa de submissão que cobra a cada participante, temos consciência que estamos a fechar “portas” a participantes de países com menor capacidade econômica. Queríamos muito inverter ou alterar esse cenário, acreditamos que toda a gente tem direito a imaginar cinema e a escrever boas histórias, mas a verdade econômica e estrutural do festival não permite que o [ele] viva noutro regime que não o atual. Temos esperança que a situação se altere a curto prazo e que o GUIÕES possa chegar a cada vez mais gente, independentemente do local de origem e realidade social.

OP: Quais as expectativas para essa e para as futuras edições do Festival?
Luis Campos: Que todos os amantes da sétima arte possam participar nesta celebração ao cinema. Temos um programa muito interessante, o mais amplo de sempre na história do GUIÕES, com a inclusão da exibição de filmes que passaram pelo GUIÕES ainda enquanto guião finalista da primeira edição, duas Masterclasses com profissionais de prestígio e que poderão contribuir para um estímulo à criação cinematográfica. Queremos dinamizar a ideia de que existe vida na atividade da escrita cinematográfica e que todos podemos fazer mais e melhor nesse sentido, em abono do cinema de Língua Portuguesa. Iremos fazer o nosso melhor para que o GUIÕES consiga ser inspirador e estimulante, ano após ano, para que cada vez mais pessoas consigam sentar-se na sua cadeira e enfrentar a folha em branco. Toda a ajuda será bem-vinda.

Finalistas
– André Collazi, “Treze de Maio, 242” (BR)
– André Novais de Oliveira, “E os Meus Olhos Ficam Sorrindo” (BR)
– Bárbara Cunha, “Menina Noiva” (BR)
– Davi de Oliveira Pinheiro, “Grito” (BR)
– Fábio Montanari, “O Clube dos Ex-Famosos” (BR)
– Mariana Tesch Morgon, “Bugs” (BR)
– Miguel Clara Vasconcelos, “Às Vezes Não Sou Eu Quem Fala Por Mim” (PT)
– Paulo Leierer, “Na Medida do Impossível” (BR)
– Rafael Santos, “A Casa Debaixo da Praia” (PT)
– Severino Neto, “Memória de Elefante” (BR)

Premiação
O primeiro colocado no festival receberá como prêmio isenção de taxa de participação no DRAMA.PT 2018 (valor aproximado de 750 EUR); isenção de taxa de participação no PLOT – Professional Script Lab 2019 (valor aproximado de 650 EUR); Prêmio Olhar de Cinema / Curitiba_Lab, com convite para participação no Curitiba Lab 2018; Prêmio World Academy – voucher de formação no valor de 500€; e Serviço de Script Doctor por Bill Labonia (valor aproximado de 200 EUR).

Os três primeiros classificados receberão bolsa de 50% de desconto em curso da Roteiraria, à escolha (valor aproximado de 3000 EUR); Software Final Draft 10 (valor aproximado de 250 EUR); isenção de taxa de inscrição para participação nos PAGE International Screenwriting Awards (valor aproximado de 60 EUR); listagem gratuita no InkTip (valor aproximado de 60 EUR); caderno personalizado beija-flor (valor aproximado de 15 EUR); garrafa Siza – Lisbon Soul by EPAL (valor aproximado de 50 EUR); livros Edições Colibri (valor aproximado de 50 EUR); livros Creative Essentials (valor aproximado de 25 EUR); e livros Texto & Grafia (valor aproximado de 25 EUR).

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