iMãe

Marisol nasceu de um parto natural

455 4
Meninas,
Quando pedi pra minha amiga Hilda Costa fazer um relato do nascimento da Marisol, ela respondeu que na verdade ela ia só terminar, pois já estava fazendo para ela mesma de lembrança desse dia tão especial. Eu ia fazer um textinho de abertura pro relato e tal, mas gente, é totalmente desnecessário, o relato da Hilda é claro e emocionante. Um exemplo de força de vontade. Tudo pela Marisol, uma meninha de 3 meses. Vocês não vão se arrepender de ler até o final. A Hilda faz questão de acrescentar que o parto foi sem anestesia, sem episiotomia e à base de gatorade!
Relato de parto natural hospitalar na banqueta
Marisol da Costa Cysne chegou ao mundo no dia 4 de julho de 2011, às 03:25 da madrugada no hospital da Unimed.

Era domingo, 3 de julho de 2011, dia em que eu me tornava uma mulher balzaquiana. Já estava com 39 semanas de gestação e pensei que poderia ser bacana ter um filho no dia do meu aniversário, mas ao mesmo tempo era coincidência demais.

Desperto por volta das 8 da manhã, mas a morgação do fim de semana não me deixa levantar da cama. Quando finalmente decido acordar, sinto um líquido descer involuntariamente por minhas pernas. Pensei mil coisas, mas não quis acreditar que por fim o trabalho de parto estava começando.

Saí correndo para o banheiro e o líquido não parava de jorrar. Era como se eu tivesse fazendo xixi nas calças! Mostrei ao Fred (meu marido) que, desesperadamente falou: “Liga pra médica!”. E assim eu fiz. A mesma disse que poderia ser um tal tampão mucoso (que geralmente desencadeia o trabalho de parto), ou mesmo o rompimento da bolsa. Me recomendou fazer uma checagem na emergência do hospital da Unimed.
Essa parte prefiro não detalhar porque imagino que a maioria das pessoas já tenha tido a infeliz experiência de precisar a um serviço de emergência. Triste! Mas resumindo: o médico-velho-tarado que me examinou disse que era bolsa rota e que eu precisaria me internar imediatamente para fazer uma cesárea, pois o risco de contaminação era elevado.

No entanto, desde que engravidei, procurei informar-me sobre o parto natural humanizado, atendendo a encontros e palestras, e tirando as dúvidas com uma das poucas obstetras verdadeiramente adeptas a esta filosofia. Por essa razão, tinha certeza que minha médica não concordaria com a opinião do plantonista e adotaria outro procedimento. Conforme pensei, ela sugeriu ao telefone que eu fosse pra casa e esperasse o trabalho de parto, que deveria começar nas próximas horas.

Cheguei em casa por volta das 11 horas e não contamos a ninguém que eu estava com a bolsa rota. Achamos melhor manter o silêncio, pois nem todo mundo entenderia essa postura. Recebi muitos telefonemas de pessoas querendo saber como seria a comemoração do meu aniversário, mas recusei o convite de todos alegando que estava me sentindo indisposta.

Passei o dia na expectativa. Acho que nunca desejei tanto sentir dor! Já se aproximava das 17hs e nenhum sinal! Falei com a médica novamente. Desta vez, ela pediu para que nos encontrássemos, pois ela realizaria o primeiro exame de toque (detalhe: ela vinha da praia e ainda estava de biquíni). Ela me examinou e disse que eu estava com 2cm de dilatação, mas que realmente precisaria esperar as contrações. Ela esperaria mais algumas horas e, caso o trabalho não iniciasse naturalmente, decidiríamos se induziríamos o parto, ou partíamos para a cesárea. Como forma de estimular o início do trabalho de parto, ela sugeriu que eu fizesse uma caminhada e comesse um jantar bem apimentado. Fui pra casa e logo subi os 9 lances de escada 3 vezes. Vesti uma roupa de ginástica e fui caminhar na beira-mar com minha mãe. Depois de alguns minutos de caminhada, comecei a sentir uma leve cólica. Na hora até pensei: “Oh beleza, finalmente começou! E é bem mais tranquilo do que falam. Vou tirar de letra!”.

Após a atividade física, marquei com algumas pessoas no Coco Bambu, visando o jantar apimentado, e lá fiz o anúncio de que em breve Marisol estaria conosco. Todo mundo ficou chocado, principalmente pelo fato de eu ainda estar com roupa de ginástica! Mas enfim. Comi uma pizza mexicana e, coincidentemente ou não, as dores começaram a se intensificar.

Cheguei em casa por volta das 21hs. Tomei um banho e pedi ao Fred para começar a cronometrar o tempo das contrações. Uma hora depois, o “bicho começou a pegar”. Comecei a andar pela casa e nenhuma posição parecia confortável. Era hora de ligar para a doula (uma espécie de parteira moderna que eu havia contratado). Pedi que ela fosse à minha casa, pois as dores já estavam muito intensas.

A doula chegou por volta das 23hs. Eu já gemia impaciente e repetia que não ia conseguir. Com toda sua calma e experiência ela foi me conscientizando do momento, e me fazendo canalizar as energias para aquele momento único. Ao mesmo tempo, tentou aliviar a dor através de compressas mornas, massagens e sugerindo posições mais confortáveis, inclusive na bola suíça. Também fiquei um tempão no chuveiro. No chuveiro senti dor, senti alívio, fiquei de cócoras, de quatro, sentei no banquinho, sentei na bola, chorei. A essa altura eu já havia chegado à “partolândia”, um lugar onde os sentimentos se misturam, as coisas vão perdendo a nitidez e a noção de tempo.

Acho que era meia-noite quando vimos que era hora de ligar para a médica. Foi quando o desespero bateu! A médica estava num plantão em Caucaia e pediu que entrássemos em contato com outra obstetra para ver se ela poderia fazer meu parto. Ligamos para a segunda opção, mas ela estava indisponível. Com isso, minha médica disse que “faria de tudo para sair”. Sugeriu que a doula fizesse um exame de toque. Eu já estava com 7cm de dilatação!

Por volta de 1 da madrugada saímos para o hospital. Logo que adentrei o hospital da Unimed, um funcionário chega me oferecendo uma cadeira de rodas, mas tudo o que eu menos queria era me sentar! Era menos incômodo ficar de pé e caminhar. O sujeito insistiu que eram “normas do hospital” e que eu tinha que aceitar a cadeira. Começa a desumanização. Será que não posso escolher como entrar no hospital para dar à luz?! Tamanha é a burocracia deste país que, embora sentindo muita dor, tive que ficar cerca de 20 minutos resolvendo assuntos de guia médico, carteirinha do plano, identificação, etc.

Estresses superados, entramos na sala de parto, que se chama PPP (parto, pré-parto e pós-parto). É um quarto comum. No entanto, Kelly (a doula), que já realizou diversos partos lá, tem permissão para deixar o local mais “apropriado”. Ela tira a maca e põe o colchão no chão, deixa uma piscina à disposição (para o caso de parto na água), tapa os vitrais com lençol, dentre outras coisinhas pra deixar a mulher o mais à vontade possível.

Num primeiro momento, me deitei no colchão e fiquei em “posição fetal”, à espera de minha Marisol. Mas a posição não estava cômoda. Fiquei um pouco impaciente. O parto na água era uma das possibilidades, mas com o frio que fazia, nem cogitei! Foi quando Kelly me sugeriu a “banqueta mágica”. Na realidade, é um banquinho com um furo no meio, onde se simula o parto de cócoras. Quando sentei neste bendito banquinho, “me encontrei”. Percebi naquele momento que teria minha filha naquela posição. Fred sentou atrás de mim, me apoiando pelas axilas. Houve um momento engraçado em que eu estava super relaxada, esperando as contrações, e Fred comentou que ia ao banheiro. Eu o implorei para que não fosse! Que permanecesse imóvel, naquela posição, e que fizesse suas necessidades ali mesmo!

Logo vieram as contrações com puxo (que significa que o bebê já está encaixando). Apenas nesse momento a médica entrou na sala. Sim! Ela conseguiu chegar a tempo. Orientou como eu deveria direcionar a força. Porém estava tão exausta que não conseguia colocar força suficiente. Foi quando Kelly sugeriu amarrar uma canga na cintura da médica (que estava sentada no chão, na minha frente). E foi assim que consegui! Devo ter empurrado umas três vezes até sentir o tão sonhado “círculo de fogo”. A sensação é exatamente essa quando o bebê está coroando. Uma queimação intensa, cheia de luz e energia. Nesse momento pude sentir o cabelinho dela entre minhas pernas e ali soube que dentro de poucos instantes estaria com meu tesouro em mãos. E às 3:25 da madrugada, já estava com minha Marisol, a sensação de tê-la em meus braços… isso infelizmente é impossível expressar em palavras!

Só lembro que nesse instante todos saíram da sala e nos deixaram curtir aquele momento sublime… só nós três! Até hoje tenho guardado na lembrança o cheirinho dela… toda ensebadinha. Foi lindo! Inesquecível.