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Agosto Dourado e a Semana Mundial da Amamentação

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Por: Raisa Arruda

O mês de Agosto é conhecido como Mês Dourado, pois é o mês que simboliza a luta pelo incentivo à amamentação, recebe o nome de dourado, pela cor estar relacionada ao padrão ouro de qualidade. Há vinte anos entre os dias 1º e 7 de Agosto acontecem ações no mundo todo em prol da Amamentação. São dias de intensas atividades que buscam informar para empoderar e promover a amamentação exclusiva até o sexto mês de vida, e complementando até os dois anos ou mais. Apesar de acontecer há 20 anos, ainda é um evento que pouco se sabe a respeito, e por isso a importância de divulgarmos, pois além de promover a amamentação, está ligado a luta pelos direitos e qualidade de vida da dupla mãe-bebê! Este ano, o tema da Semana Mundial do Aleitamento Materno é “Amamentação e Trabalho, para dar certo o compromisso é de todos”.

semana da amamentação

Foto: Iara Aimê

Em clima de SMAM e Agosto Dourado, o texto desse mês traz um pouco da palestra ministrada sábado, na abertura e chamada para SMAM 2015, realizada no meu consultório.

Sabemos que a amamentação é um processo fisiológico, que o leite é produzido no decorrer da gestação, que quando o bebê nasce o cérebro recebe a mensagem que está na hora de liberar o colostro e o leite (por isso é importante que mesmo que seja por cesárea a mulher entre em trabalho de parto, para que o leite “desça” junto do nascimento do bebê!!!). Bom, mas se é um processo fisiológico, por que tanta gente não consegue, por que é tão difícil? Nós não somos apenas instinto, somos uma equação entre instinto-fisiologia-cultura. A cultura interfere na relação que construímos com nosso corpo, nossa subjetividade é construída a partir de como absorvemos e compreendemos as regras sociais, e amamentar está incluso nessa relação. A forma como nos relacionamos com o nosso corpo, como construímos uma imagem de nós mesmos, e, mais ainda, o imaginário do que é a maternidade, vai interferir na amamentação. Acrescente a isso todas as nossas questões de desprendimento ou presença, de medo, angústia, controle, relação com nossa mãe e avós, relação com o marido e o ideal paterno…. Pronto! Temos um grande emaranhado de trechos da nossa história que incidem numa situação. Ainda temos questões sociais relacionadas ao consumo e ao trabalho, que cobrem a amamentação de discurso negativo, apesar de todas as campanhas em prol a amamentação. Então, não é possível pensar na amamentação como uma situação isolada.

As exigências culturais, acrescidas da história de vida da mãe, da relação com o corpo, da relação com a maternidade etc, criam um lugar para a amamentação na vida dessa mulher, e consequentemente na relação com o bebê.

A amamentação, isoladamente, é a estratégia de maior impacto capaz de salvar a vida de cerca de 13% das crianças menores de 5 anos em todo o mundo por causas previsíveis. O estímulo da amamentação exclusiva salva nada menos que 6 milhões de crianças por ano. O leite materno é o melhor alimento que um bebê pode receber nos seus primeiros anos de vida, sendo indicado até dois anos ou mais. Sua superioridade orgânica o torna de melhor digestibilidade, sendo o alimento mais completo para promover o crescimento e desenvolvimento infantil. Crianças amamentadas também estão mais protegidas contra doenças infecciosas.

Falar dos benefícios da amamentação acaba se tornando uma cobrança muito cara para muitas mulheres que ao terem filhos se esforçam para atingir a maternidade perfeita, e amamentar carrega um peso muito grande, que quando a mulher não consegue, muitas vezes sucumbe à culpa por não ter alcançado essa “obrigação”, principalmente por conta da questão orgânica da amamentação, muitas se veem como se não fossem boas o suficiente, ou como se tivesse algum “defeito”. Quando na verdade, ao falar dos benefícios, o intuito é informar para que as mães sigam adiante, com a certeza de que estão fazendo o melhor, quando as pessoas criticam, e para que elas saibam que a dificuldade na amamentação tem um contexto cultural, que interfere nessa relação com o corpo e com a maternidade. Para que a amamentação dê certo não é apenas função da mulher, o pai, por exemplo, tem uma função simbólica primordial de proteger a mãe e o bebê nos primeiros meses (o famoso puerpério) para que a relação entre essa dupla se estabeleça sem maiores dificuldades, para que a hora da amamentação seja protegida de estresse e perturbações, pois a mulher precisa estar plena e protegida emocionalmente para produzir o leite suficiente, para estar presente no momento, para que a interação com o bebê seja prazerosa naquele momento. Além disso, se faz importante que durante o pré-natal se busque informações a respeito, e mais ainda, buscar apoio psicológico durante a gestação e puerpério pode fazer muita diferença nos primeiros momentos de maternidade, que se constrói desde a descoberta da gravidez, pois assim, os medos, angustias e dificuldades serão trabalhadas, não por uma maternidade perfeita, mas para se alcançar a maternidade real, aquela em que se reconhece os limites e dificuldades, se busca melhorar a cada dia, reconhecer a falta de controle, aprender a lidar com a frustração e a maternidade como ela é.

No Brasil a média de amamentação exclusiva é de 23 a 53 dias, e as duas principais causas são falta de apoio social e de informação, se as famílias fossem acompanhadas de forma efetiva, e não fossem tão bombardeadas por discursos adversos à amamentação, como se amamentar fosse um fardo, essa realidade seria bastante diferente. E o ponto que este ano a Semana Mundial da Amamentação quer falar é sobre Amamentação e Trabalho, pois além de todas as questões citadas acima que contribuem para dificuldade de amamentar, existe a crença que a mulher só conseguirá voltar ao trabalho se desmamar precocemente o bebê, e isso gera muito estresse na relação mãe-bebê, principalmente quando a mãe tem o desejo de continuar amamentando, ou desejo que o desmame aconteça naturalmente, que seria o ideal.

A Organização Internacional do Trabalho, em 1919 na sua 3ª Convenção tratou dos direitos à maternidade à mulher que trabalha, na qual a mulher tinha direito apenas 6 semanas antes e 6 semanas após o parto de licença, essa convenção foi revisada em 1952, na Convenção 103, que ainda não garantia à trabalhadora segurança no trabalho após a maternidade, dentre outras coisas que não foram abordadas na convenção. Em 1998, a OIT iniciou uma plenária de revisão da Convenção 103 ” Como esta Convenção não foi revisada por quase 50 anos, a preocupação era assegurar a melhor proteção possível para mães e bebês por muitos anos futuros. Para assegurar os benefícios a longo prazo para todos os setores de nossa sociedade, a Convenção precisava refletir os papéis essenciais das mulheres como mães e empregadas valiosas na realidade atual e futura.” (IBFAN, 2000). Em 2000 foi aprovada a Convenção 183(OIT, 2000),que ampliava o direito da trabalhadora à maternidade, assegurando sua volta ao trabalho, assim como o direito à amamentação: “1 -A mulher tem direito a uma ou mais pausas por dia ou a uma redução da duração do trabalho diário para amamentar o seu filho. 2 -O período durante o qual são permitidas as pausas para amamentação ou a redução da duração do trabalho diário, o número e a duração das pausas, bem como as modalidades da redução da duração do trabalho diário, devem ser determinados pela legislação e a prática nacionais. As pausas ou a redução da duração do trabalho diário devem ser contadas como tempo de trabalho e remuneradas em conformidade” (Convenção 183 –OIT, 2000)

Este ano, desejamos aproveitar o tema da SMAM para continuar com a luta pela melhora das condições de trabalho da mulher trabalhadora que é mãe e amamenta.

Raisa Pinheiro Arruda
Psicóloga
CRP 11/07646
(85) 9922 1192
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