Leituras da Bel

Leituras da Bel Entrevista: Thati Machado

Thati Machado, a autora

Thati Machado, a autora

Thathi Machado é carioca, tem 25 anos e utiliza a literatura para militar por diversas causas. Com mais de 1,5 milhão de leitores na internet, a autora circula sem temor por temas como gordofobia, transexualismo e preconceito. Atuante nos meios digitais, Thati começou sua carreira publicando suas histórias em formato fanfic no Orkut. Em entrevista ao Leituras da Bel, ela diz que não se sentia representada na literatura, que a gordofobia pode vir disfarçada de “preocupação com a saúde”, que questionava o fato das protagonistas dos livros seguirem um padrão e “estarem sempre tão distantes de nós”.

Leituras da Bel – Por que seu novo livro, Com outros olhos, se faz importante nesse momento do nosso país?
Thati – Acredito que todo livro ou mídia que traz representatividade é importante e merece atenção. Não é diferente com a história da Lana. Além de representar uma figura feminina forte, diferente do estereótipo de mocinha frágil, Lana é deficiente visual e lida muito bem com isso e com todas as mudanças que surgem a partir desse fato. O livro, pensado para o público jovem, faz mais do que apenas entreter: nas entrelinhas, você acaba se deparando com exemplos de força e superação inspiradores.

Leituras da Bel –Você trabalha com temas muito atuais na literatura – como a gordofobia, o preconceito e o transexualidade. Como foi o teu encontro com esses assuntos?
Thati – Alguns deles vivi e vivo na pele. Nunca me senti representada na literatura e cheguei a questionar o motivo das protagonistas seguirem um padrão e estarem sempre tão distantes de nós. Parti do seguinte ponto: “e se os livros fossem protagonizados por pessoas reais, como você e eu?”. A partir daí, senti que precisava abraçar as minorias e não marginalizá-las em minhas histórias, como fazemos há tanto tempo na sociedade de forma geral.

Leituras da Bel – Apesar de trabalhar com temas pesados, sua escrita é apontada como leve e empolgante. Como é fazer essa união de tendências e afetos?
Thati – Eu abordo todos esses assuntos com muita naturalidade, e não como tabus. Por esse motivo, acredito que consigo passar essa naturalidade para meus leitores e por isso os assuntos tidos como “densos” acabam se tornando leves e empolgantes. Para mim, tudo depende de uma boa abordagem.

Foto: arquivo pessoal

Foto: arquivo pessoal

Leituras da Bel – A gordofobia em especial, no Brasil, é um tema que merece atenção? Por qual razão?
Thati – Com toda certeza. Existe muita agressão gordofóbica disfarçada de preocupação com a saúde, mas quem vive isso na pele sabe que não se trata disso. Somos criados acreditando que ser gordo é algo ruim quando, na verdade, é apenas uma das nossas muitas características. Muitos médicos afirmam, inclusive, que é possível ser gordo e saudável, mas as pessoas preferem acreditar no contrário para disfarçar o preconceito que sentem e disseminam. E isso precisa acabar. Muitas pessoas entram em depressão ou têm sérios problemas de autoestima por causa das agressões físicas e psicológicas que sofreram por estarem acima do peso.

Leituras da Bel – Como é o teu processo de produção? Há muito estudo sobre os temas?
Thati – Quando são temas que vivo na pele ou com os quais convivo, acaba sendo mais fácil. Para as temáticas que se afastam mais de mim, no entanto, é necessário pesquisa constante. Para que minha abordagem seja leve e dinâmica, preciso ter intimidade com os assuntos que pretendo tratar, então cada livro acaba exigindo um tipo de pesquisa e envolvimento diferentes. Para escrever Com outros olhos, por exemplo, precisei fazer mais do que pesquisar sobre pessoas cegas: passei um mês andando com uma venda nos olhos para entender como seria perder a visão de um dia para o outro. Foi uma experiência transformadora.

Leituras da Bel – Como foi a experiência de fazer a leitura para a plataforma Ubook?
Thati – Eu nunca imaginei narrar uma história, ainda mais escrita por mim, mas a experiência acabou se provando maravilhosa. Eu amei dar vida à Lana e fiquei muito contente com o resultado do trabalho em parceria com o Ubook. Sinceramente, espero que esse seja apenas o meu primeiro audiolivro.

Leituras da Bel –O Ubook pode proporcionar o encontro com outros leitores, que são cegos ou têm problemas de visão. Qual tua expectativa para isso?
Thati – Eu prezo e valorizo muito a questão da representatividade, então espero que muitas e muitas pessoas possam se sentir representadas pela Lana (ou até mesmo pelo Arthur, por que não?). Se antes as pessoas cegas não tinham nenhuma maneira de chegar até o meu livro, agora o Ubook me abriu uma porta que pretendo manter escancarada.

Leituras da Bel –Você tem 25 anos, mas já tem um público de leitores cativos. O quanto a internet foi importante para isso? Você acha que há espaço para todos nas redes?
Thati – Foi através da internet que eu mostrei o meu trabalho e conquistei novos leitores. Sem ela, minhas histórias jamais teriam o alcance que têm hoje. E há um fato maravilhoso sobre a internet: ela é muito democrática. Se você estiver produzindo um bom material e se empenhando arduamente na divulgação, em algum momento você colherá os frutos que tem plantado. Sem sombra de dúvidas, há espaço para todos brilharem!

Leituras da Bel – Hoje, temos uma polarização muito forte no país – principalmente, com opiniões sendo esbravejadas de forma muito enfática na internet. Como você posiciona seu blog e seus trabalhos textuais nesse cenário? As postagens precisam ser mais pensadas?
Thati – Eu tenho minhas opiniões e me reservo o direito de tê-las. Ainda assim, isso não me dá o direito de desrespeitar as opiniões alheias. Como escritora, exponho minhas ideias, argumentos e fatos, mas tudo bem se houver alguém discordando. Nós podemos conversar a respeito e tirar ótimas conclusões a partir daí. Acredito que o segredo desse equilíbrio está no respeito e no diálogo.

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