Leituras da Bel

Leituras da Bel entrevista: Conceição Evaristo

Conceição Evaristo, escritora. (Foto: Joyce Fonseca/divulgação)

A força que move Conceição Evaristo é coletiva. Escritora de 70 anos, ela passou a infância rodeada por histórias e pela palavra falada. Da infância pobre em Belo Horizonte, trouxe a certeza de que não queria repetir o caminho das outras mulheres da família. Não seria faxineira ou cozinheira. Seria professora. E foi. Entrou no curso normal, na faculdade de Letras, no mestrado e no doutorado. O poder da palavra, entretanto, se manifestava não apenas nos estudos de teoria literária, mas também nas densas narrativas construídas por Conceição. Foram necessários 20 anos para que o primeiro livro fosse impresso. Depois disso, o sucesso. A mineira radicada no Rio de Janeiro é uma das mais notórias escritoras brasileiras vivas. Coleciona prêmios, leitores e convites para eventos. A literatura, entretanto, não lhe garante a sobrevivência financeira. É com a aposentadoria de professora que leva a vida. Conceição estreou na XII Bienal Internacional do Livro do Ceará na terça-feira, 18. Ao longo da semana, terá mais dois momentos de encontro com o público cearense. Com o Leituras da Bel, a escritora conversou sobre leitura, escrita, representatividade e potência coletiva. Ela acredita que, se existe uma Conceição Evaristo, existem outras intelectuais negras afiadas para ocupar seus lugares de fala. “Nesse processo histórico, nós não podemos perder de vista que as nossas conquistas têm que ser coletivas. Se forem individuais, a gente dança na primeira esquina”, ensina.

Leituras da Bel Hoje, a senhora é uma escritora respeitada nos círculos literários. Mas demorou 20 anos até publicar o primeiro livro. Por qual razão aconteceu essa demora?
Conceição Evaristo – Para mim, essa demora tem muito a ver com o imaginário que se tem em relação a mulher negra brasileira. E também pela minha origem de classes populares. Tudo se torna muito mais difícil. Você não tem apadrinhamento. Você não conhece os grandes editores. Eu fiz tentativas. Umas três ou quatro tentativas de publicar. Tive a impressão de que o trabalho chegava e não era nem aberto. Me devolviam sem muitas explicações. Isso tudo contribuiu para a grande demora, para conseguir publicar. Minhas publicações só foram acontecer quando eu comecei a publicar com o Quilombhoje, um grupo de São Paulo, de escritores afro-brasileiros. É um sistema de cooperativa. Então, cada um colabora e publica. Mas foi primeiro pelo Quilombhoje.

Leituras da Bel – A senhora não nasceu rodeada de livros, mas nasceu rodeada de palavras. Como foi sua relação com a literatura na infância?
Conceição – Eu cresci escutando histórias. Tanto histórias relativas aos africanos e seus descendentes escravizados no Brasil como histórias do cotidiano. Lá em casa minha família tem o dom da palavra. Se for contar um fato, um fato corriqueiro, um fato do dia a dia… o fato vira uma história! É muito característico das culturas oralizadas. “Quem conta um conto aumenta um ponto”. Eu cresci seduzida pelos jogos de palavras. Tive a felicidade de conviver com o marido da minha tia, ele era praticamente um griô. Se ele ia contar uma história que o sujeito tropeçou e caiu, ele tropeçava e caia no chão. Eu tive essa riqueza. Minha mãe sempre contava histórias pra gente. Minha mãe fazia bonecas de pano pra gente e, enquanto costurava, ia criando histórias para a boneca. Eu tive a felicidade da contação de histórias.

Foto: Marcello Casal Jr/Agência Brasil

Leituras da Bel – Esse processo se perpetua na escola?
Conceição – E quando eu entro pro primário a coisa muda, pois já é a história escrita, mas fico embevecida também. E vem também o meu prazer e a minha curiosidade pela leitura. Depois, em um dado momento, uma das minhas tias vai ser servente numa biblioteca pública de Belo Horizonte. Eu digo que nesse momento ganhei uma biblioteca. Eu tinha livre trânsito para entrar e sair. Afinal, minha tia era funcionária. E também toda a minha juventude passo sem televisão. Era um objeto raro. Tinha televisão quem era rico, pessoas de posses. Isso me levava para a leitura. Me levou para a leitura. Meu tempo de lazer era a leitura. E sempre permeada pela fala. A minha literatura tem origem na oralidade da cultura afro-brasileira.

Leituras da Bel – Mas nem todas as crianças brasileiras têm esse contato com as palavras…
Conceição – A gente tem que pensar tanto a escrita quanto a leitura que são produtos culturais que deveriam estar a alcance de todos. As pessoas todas deveriam ter essa possibilidade de escrever, essa possibilidade de ler. Independente de virarem ou de serem escritores. O exercício da leitura e da escrita deveria ser como direito à habitação, alimentação, saúde, saneamento básico. A escrita e a leitura deveriam ser de valia, de pertença, de todos nós. E não só de determinadas classes sociais.

Leituras da Bel – Hoje, a mulher negra brasileira tem o que comemorar?
Conceição – Eu acho que nós temos de comemorar, sim. Pois não podemos perder o processo histórico. As poucas oportunidades que nós temos tido, eu acho que vale comemoração, sim. Até por uma questão de alimentar o nosso emocional e perceber o tanto que nós construímos. Nada disso nos chegou de graça. Nós temos direito as comemorações, sim. Mas sem perder de vista que o que nos chegou ainda é muito pouco diante da nossa luta, diante do que a gente merece, diante das injustiças que nos são feitas e das injustiças que nós sofremos no cotidiano.

Leituras da Bel – Injustiças históricas também….
Conceição – Também! Acho que se comemora, mas não podemos achar que chegamos ao topo. Não chegamos mesmo. A gente ainda tem muito e muito que buscar e o que conquistar.

Leituras da Bel – Durante a última edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), a senhora fez coro com outros intelectuais e questionou a presença recorrente de grupos específicos nas mesas principais, enquanto os autores negros permaneciam em programações secundárias. Essa mobilização coletiva é importante?
Conceição – Nós não podemos perder de vista esse processo histórico que vivemos para abrir as portas. É um processo que tem que acontecer no coletivo. Não podemos sustentar com as conquistas pessoais. E quando eu falo desse processo no coletivo, porque, a visibilidade que eu tive dentro da Flip em uma mesa paralela organizada pelo Itaú, que eu fui convidada, naquele momento eu estava muito sustentada, e estou sustentada, pelo discurso de Giovana Xavier. Uma historiadora negra da (Universidade) Federal do Rio de Janeiro. Quando ela soube da ausência de escritores negros na Flip, ela redigiu uma espécie de manifesto que denominou “Arraiá da Branquidade”. Esse manifesto rodou pelas mídias sociais. E quando eu chego na Flip, um jornalista que tinha lido esse manifesto, me pergunta se eu sou autora. Eu digo que a autoria não é minha, que é de Giovana, mas eu assino embaixo. Então, a partir disso, eles começam a me questionar. E eu tenho a oportunidade de enfatizar, de fazer coro, de concordar e de basear minha fala na fala de Giovana. O que eu quero dizer? A força da fala coletiva de mulheres negras. A base da minha fala já tinha sido construída pelas argumentações de Giovana. Nesse processo histórico, nós não podemos perder de vista que as nossas conquistas têm que ser coletivas. Se forem individuais, a gente dança na primeira esquina.

Leituras da Bel – Mas há espaço, acadêmicos e profissionais, que continuam sendo ocupados majoritariamente por homens brancos de classe média. Como ter outras representações nesses espaços profissionais?
Conceição – Eu acredito que, como já disse, nada pra gente vem de graça. Tudo é com luta muito árdua. Esses espaços nunca serão abertos com boa vontade. Nós temos que forçar a barra mesmo e ter consciência de que quem vai abrir esses espaços somos nós mesmos. O próprio espaço da literatura. Estávamos falando antes da falta de representatividade nossa em grandes eventos literários. Isso é muito recente. A presença de escritores e escritoras negras em grandes espaços literários. Acredito que agora comece a mudar, a partir de muitas reivindicações nossas. O quadro tende a mudar. Nós estamos presentes, nós vamos lá. Mesmo quando não teve esse convite oficial para a última Flip, mas tinha uma representatividade negra lá buscando, questionando. Eu acho que o tempo todo temos de estar nessa luta mesmo. Se a gente não se pronunciar, a tentativa é realmente de nos esquecer. Eu acho que pode mudar, mas muito a partir das nossas ações.

Leituras da Bel – A escrita como profissão é possível no Brasil?
Conceição – A gente pode contar nos dedos quem hoje no Brasil vive da escrita. E, claro, para escritoras e escritores oriundos das classes populares, isso se torna mais difícil ainda. Na verdade, a literatura, até agora para mim, só muito recentemente, veio em termos financeiros. Muito recentemente é que eu tenho alguma devolução. Pois na maioria das vezes é um investimento. Mas é possível se você tem uma certa organização, é possível. Quando eu falo dessa possibilidade também, nota que você está falando com uma escritora de 70 anos. É um longo processo histórico, pessoal, para chegar até aqui. E eu não sobrevivo da literatura. Eu sou professora aposentada. É disso que tiro a minha sobrevivência, e não da literatura. Claro que hoje sou chamada para uma palestra, tem um pró-labore, se eu vendo uma quantidade maior de livros, se meus livros são indicados para o vestibular… É possível ter algum retorno nesses casos. Mas você não pode viver da ilusão, pelo menos para mim, que a literatura vai ser o ganha pão. Não vai ser a fonte de sobrevivência.

Leituras da Bel – Não é a primeira vez que a senhora vem para a Bienal, que foi reformulada nesta edição. O que a senhora espera do evento e do seu reencontro com Fortaleza?
Conceição – Eu me lembro de quando fui. Muito bem recebida. Não tenho dúvida que serei bem recebida novamente. Eu espero, o que tenho dito em outros espaços, que a minha presença em Fortaleza sirva também para chamar atenção de que existem outras mulheres negras escrevendo. Nós temos uma série de escritoras que estão produzindo, tanto no campo literatura quanto no campo da crítica, no campo da educação e no campo da história. Nós temos um grupo bom de intelectuais negras. Meninas jovens, mas comprometidas com suas pesquisas e com suas criações. Na literatura, no cinema, no teatro. Espero que cada lugar que eu passe desperte essa curiosidade, essa procura no público: se existe uma Conceição Evaristo, então, existem outras escritoras também. Eu espero muito isso. Que as pessoas, que a minha imagem possa contribuir para a afirmação de outros lugares para as mulheres negras, que a gente possa no cotidiano romper com esse imaginário de que as mulheres negras estão só no lugar da subalternidade.

Serviço
Conceição Evaristo em diálogo com Kiusam de Oliveira: Pessoas que transformam vida em palavras que dão vida
Quando: quinta-feira, 20, às 20 horas
Onde: Sala Moreira Campos (Sala 1 – Mezanino 2)

Encontro Oralidades & Escritas em Língua Portuguesa: Apresentação do Grupo Pérolas do Índico – Dança Marrabenta (Moçambique). Mulheres na Literatura: territorialidade e resistência: Conceição Evaristo, Moema Augel e Rita Chaves
Quando: sexta-feira, 21, às 18 horas
Onde: Sala José de Alencar (Sala 2 – Mezanino 2)

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