Quando a artista mexicana Frida Kahlo morreu, em 1954, parte dos seus pertences foi guardada em um banheiro. Vestidos, óculos, xales, coletes, joias e até a famosa prótese que ela mesma desenhou quando teve a perna amputada foram trancafiados ali. Naquele ano, Diego Rivera, parceiro de Frida na pintura e no amor, sentenciou que o acervo da esposa só deveria voltar à luz do sol 15 anos após a morte dele. Assim, instruiu uma amiga íntima, Dolores Olmedo, a manter o acervo em sigilo.

O mexicano morreu três anos depois, em 1957, mas Dolores manteve as peças no claustro por quase 50 anos. O pedido foi encarado com tanto apreço e seriedade que apenas em 2004, após a morte dela, o local foi, enfim, aberto.

No mítico banheiro da Casa Azul – residência do casal que mais tarde se tornaria um museu dedicado à vida e à obra de Frida – estavam 300 roupas e objetos pessoais carregados com memórias da pintora, da produção artesanal da época, e da arte mexicana. Dezenas de pessoas aguardavam o momento no qual as peças seriam, finalmente, vistas. Memorialistas, pesquisadores, estilistas. No grupo estava a fotógrafa Graciela Iturbide. Inspirada na estética do também fotógrafo Manoel Alvarez Bravo, ela fez um ensaio com as peças. As imagens integram o livro El ropero de Frida, ainda sem tradução para o português, e que será tema do projeto Literatura em Revista hoje, às 17h30min, no Centro Cultural Banco do Nordeste.

Izabel Gurgel, jornalista e convidada do evento, viajou ao México e lá conheceu o acervo e os corredores da Casa Azul. Daquele país, trouxe duas edições do livro. Uma está disponível no Plebeu Gabinete de Leitura e a outra é fonte de inspiração e descobertas para Izabel. Com a obra em mãos, ela faz conexões entre a estética de Frida Kahlo, o cenário artístico mexicano do século passado e a a produção têxtil.

Frida Kahlo

“O acervo é um documento sobre os saberes do México oriundos de mãos anônimas, pois grande parte do guarda-roupa de Frida Kahlo é formado por peças feitas por artesãos mexicanos desconhecidos”, explica Izabel. No evento, a jornalista vai conversar sobre o legado deixado pela pintora mexicana através do vestuário. Com a abertura do banheiro, os estudiosos se perguntaram como a pintora chegava até as peças e como as peças chegavam até ela.

Convivendo lado a lado, no “ropero” de Frida, estão as roupas artesanais, os itens de alta costura e tecidos vindos do Oriente. “Esse movimento está mais presente no nosso cotidiano do que percebemos. Quando uma pessoa morre, um mundo de coisas resiste e quem fica deve dar um destino. Às vezes, isso demora duas, três ou até quatro gerações. O gesto do Diego, de separar parte do acervo e guardar, nos fala sobre isso. É um absurdo os objetos sobreviverem a gente”, elucida Izabel Gurgel.

Serviço
O guarda-roupa de Frida Kahlo. Acervo, arquivo, edição
Quando: hoje, 9 , às 17h30min
Onde: Centro Cultural do Banco do Nordeste (rua Conde d’Eu, 560 – Centro)
Convidada: Izabel Gurgel
Mediação: Talles Azigon
Outras informações: (85) 3464 3108
Entrada gratuita

Saiba mais
O livro El ropero de Frida tem coordenação editorial de Denise e Magdalena Rosenzweig. A primeira edição foi publicada há dez anos, por iniciativa dos museus Dolores Olmedo e Frida Kahlo, do Conselho para a Cultura e para as Artes de Nuevo León (Conarte) e da
Zweig Editoras.

Frida Kahlo é mexicana e ficou conhecida pelos autorretratos. Desde criança, teve uma saúde debilitada, aos 18 anos sofreu um acidente grave e passou por mais de 30 cirurgias.
Antes de morrer, Diego Rivera separou objetos para transformar a Casa Azul no Museu Frida Kahlo, inaugurado em 1958. Parte do acervo ficou guardado em um banheiro da casa.

Quando as peças saíram do claustro, originaram estudos e publicações sobre Frida, a arte mexicana e outros aspectos. Uma seleção das mais de seis mil fotos encontradas, por exemplo, gerou o livro Frida Kahlo – Suas fotos. Do acervo de vestuário foi elaborado o livro El ropero de Frida. Para saber mais sobre a vida e a obra de Frida, Izabel Gurgel recomenda o material disponível no Plebeu Gabinete de Leitura, na sede da Associação Cearense de Imprensa (rua Floriano Peixoto, 735, 5º andar – Centro). Lá, há revistas, livros e catálogos.

About the Author

Isabel Costa

Inquieta, porém calma. Isabel Costa, a Bel, é essa pessoa que consegue deixar o ar ao redor pleno de uma segurança incomum, mesmo com tudo desmoronando, mesmo que dentro dela o quebra-cabeças e as planilhas nunca estejam se encaixando no que deveria estar. É repórter de cultura, formada em Letras pela UFC e possui especialização em Literatura e Semiótica pela Uece. Formadora de Língua Portuguesa da Secretaria da Educação, Cultura, Desporto e Juventude de Cascavel, Ceará.

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