Leituras da Bel

Coluna Cartas as poetas do nosso tempo: Micheliny Verunschk

Micheliny Verunschk

Por Nina Rizzi*

A escritora Nina Rizzi é a nova colunista do blog Leituras da Bel. Mensalmente, sempre nas primeiras sextas-feiras, ela vai falar sobre mulher e poesia. Novos nomes passam a incorporar o blog – pois esse espaço carrega o meu nome, mas é feito de coletividade (<3). Aguardem! Muita gente boa vai escrever por aqui a partir de agora. No primeiro texto, Nina apresenta a escritora e historiadora pernambucana Micheliny Verunschk. Leia abaixo:

quem tem medo de micheliny verunschk?**
quem tem medo da mulher-onça?

bicho onça todo mundo sabe que espreita, espreita, encara. até os olhos se encantar. a gente pode nunca ter visto, mas sabemos que ataca, feita tigre. espreita, encara, encanta. ataca quando é preciso; e tantas vezes é preciso.

ainda que saibamos onça, onça não dispensa apresentações. porque não há ninguém no mundo que possa dizer muito exatamente o que só uma mulher pode dizer; esta mulher-onça. poderia dizer num rasgo objetivo:

Micheliny Verunschk tem oito livros publicados, três romances, quatro livros de poesia. Autora de Geografia Íntima do Deserto (Landy, 2003), finalista do Prêmio Portugal Telecom e Nossa Teresa – vida e morte de uma santa suicida (Patuá, 2014), Prêmio São Paulo de Literatura de 2015.

mas isso é fiapo de onça. onça se esgueira. me olha. não tenho medo. encanto-me.
a verdade é que eu não posso dizer, embora seja preciso sempre dizer, apresentar e dizer o que quem já leu sabe: seus poemas nos estalam e disparam de um tal modo a nos fazer escrever assim-assim, no disparamento. porque nenhuma de nós podemos mais nos calar – sim a mulher-onça nos lembra dizer e não calar. redigo assim-assim:

o que é uma mulher quando onça? o que não somos quando é urgente arder e ardemos? que é uma mulher? que é uma onça? que é uma escrita-onça? que pode uma mulher? [tudo? tudo!] – quem tem medo de uma mulher que escreve, de mulher-onça?

— sigo lendo pensando sendo e digo ainda:

mulher,
safo coatclue maria pachamama teresa
: mulher, essa que nos escorre em pêlo
pelos papéis até os olhos, mulher
ouça! uma mulher escreve – é onça.

Micheliny Verunschk, poetisa e historiadora

mas sim, é preciso ainda deixar de dizer, deixar dizer quem melhor pode dizer, a onça em-si, mulher, micheliny ela:

Pensamento enquanto teço um pequeno tapete

se os nomes das mulheres
assassinadas
fossem lã
a lã que tece os tapetes
se o nome das mulheres
assassinadas fosse linha
a linha em torno dos dedos
ou na trama do tear
daríamos voltas e voltas
e voltas e voltas
movimento de rotação
nesse planeta triste para mulheres
voltas e voltas
voltas e voltas
um novelo imenso
muito maior que o planeta
com nossos nomes
com nossas lágrimas,
avó aranha.

Micheliny Verunschk, a Onça

[ela diz – cada mulher-onça é que poderá dizer os rasgos, o atravessamento, o deserto dentro, o melhor jardim. ela diz – escreve! sê onça: espreita, encara e encanta, deixa dizer o poema: um algo enigma e potência que alcança as entranhas de mulher-onça, a animalidade reencantada. ela diz, silenciosamente enquanto lemos, como segredo dito ao coração. segredos que sentimos junto bem-fundo, na leitura que nunca poderá revelar tudo. assim é que os poemas se fazem miraculosos: se escrevem, abrem esses mil sóis sob a terra violenta; sentimos, ainda bem. continuamos a te ler, onça. escrevemos-onça. e nunca mais morremos.]

*Nina Rizzi é escritora, tradutora e poeta. Tem textos publicados em revistas, jornais, suplementos e antologias. É também integrante do grupo Leituras Públicas. Gosta de saraus, de periferia, do Centro de Fortaleza e de eventos literários. Ela escreve mensalmente no blog Leituras da Bel sobre mulher e poesia.

 

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