Leituras da Bel

Coluna À procura da poesia: Doze noturnos da Holanda, de Cecília Meireles

Cecília Meireles

Por Talles Azigon (da página Poesia Brasileira)

“Olá, menines…” Se essa coluna fosse um canal do youtube, certamente, iniciaria sempre dessa maneira. Amo youtube, amo essa possibilidade de falar diretamente com pessoas. Temos a leve impressão de a youtuber estar falando diretamente conosco, somente conosco, quando muitas vezes sua audiência pode ser de milhões de pessoas.

O livro de poemas é bem parecido. A sensação é sempre de um a um, ou uma a um, ou um a uma, ou uma a uma. Geralmente, não temos mil personagens falando ou mil enredos. Um livro de poemas é quase sempre um diálogo.

Em Doze noturnos da Holanda, a conversa é sobre a noite, a bruma, a morte, o desbotamento, a névoa, a escuridão, o esmaecimento. Vamos esquecer a famosa Cecília Meireles dos famosos poemas Motivo, Motivo da Rosa, Lua Adversa. Cecília é uma poeta tão profícua e diversa, escreveu obra tão grandiosa, vasta, que chega ser uma injustiça ficarmos com a Cecília do jardim com flores.

Eu mesma não vejo quem sou, na alta noite,
nem creio que SEJA: perduro em memória,
à mercê dos ventos, das brumas nascidas
nos dormentes lagos que ao luar se evaporam.

Nossa Cecília, muito turista, foi fazer um rolê na Europa. Quando voltou publicou um livro único, O Aeronauta, de duas partes, tão distintas, que logo se partiram. A editora Global lançou os dois. Minha versão de Doze noturnos da Holanda é de 2014 e ganhei (emprestada) do meu amigo – certamente um dos maiores colecionadores de livros de poemas do Ceará – o também poeta Madjer de Souza Pontes. O livro é bem fino, em cada Noturno, aparentemente, o tema é o mesmo, porém, conforme vamos nos acostumando com a escuridão, as coisas dentro dela começam a ganhar formas um pouco mais exatas e conseguimos distingui-las todas.

Há muito mais noite do que sobre as torres e as pontes:
e dela se avistam de outra maneira os longos prados sucessivos,
o limo, as conchas, os frágeis esqueletos,
a crespa vaga paralisada em húmus,
despedida para sempre do março

Para ler esse livro, assim com boa parte dos livros de poemas, você vai precisar se propor à experiência, nesse caso em particular, você não vai ter um álbum de frases impactantes para colocar no Facebook. São textos tão brumosos, não é a noite das luzes piscando, das festas espetaculares. Você vai se deparar com a noite cenário do filme de Drácula, a noite dos esquecidos, a noite dos afogados

Sem podridão nenhuma,
jazerá um afogado nos canais de Amsterdão.

E eu sei quando ele caiu nessas águas dolentes.
Eu vi quando ele começou a boiar por esses líquidos caminhos.
Eu me debrucei para ele, da borda da noite,
e falei-lhe sem palavras nem ais,
e ele me respondia tão docemente,
que era felicidade esse profundo afogamento

Em mão dessas informações pode surgir o interrogatório inevitável, e sim, essa coluna tem como objetivo maior oferecer motivos para ler os livros de poemas indicados, ou mesmo outros livros de poemas, por que? Responderei. As nossas sensações parecem que têm fome. Precisamos oferecer alimento para nossos estados de espírito. E Doze noturnos da Holanda pode ser um excelente alimento pensando nesse sentido. Esse livro parece que diminui a temperatura em uns oito graus, diminui as luzes, diminui o som, oferece comida pro nosso silêncio e dentro desses poemas somos convidados a rezar 12 mistérios da noite

A noite levava-me tão alto
que os desenhos do mundo se inutilizavam.
Regressavam as coisas à sua infância e ainda mais longe,
devolvidas a uma pureza total, a uma excelsa clarividência.

Quando você se propor a essa experiência, terá entrado em uma grande aventura medieval, uma novela de cavalaria – porém sem espadas, sem personagens, sem atos heróicos, sem dragões, sem feitiços, bebês abandonados que na verdade eram reis. Dentro desse livro você vai ler só as paisagens, vai perceber como elas são mais importantes e diferentes umas das outras do que você pensava que fossem. Paisagem após paisagem, “descegando” seus olhos de acontecimento, desdobrando para você intimidade do mundo escondido nas trevas da noite.

Homem, objeto, fato, sonho
tudo é o mesmo, em substância de areia,
tudo são paredes de areia, como neste solo inventado:
mar vencido, fauna extenuada, flora dispersa,
tudo se corresponde:
zune o caramujo na onda com o mesmo som do lábio de amor

Depois da leitura dessa Cecília – quase gótica suave – conte cá pra gente: você já leu algum livro da Cecília? Conhecia esse livro? Doze noturnos é uma boa pedida para momentos silenciosos, mas pode ser muito bem acompanhado por algum disco da Landa Del Rey, por que não, poesia é algo sempre novo.

*Talles Azigon é poeta, editor e produtor cultura. Já publicou os livros Três Golpes D’Água e MarOriginal. Gosta de assistir Hora da Aventura, de passear na Floresta do Curió e do banho na Sabiaguaba. À procura da poesia é uma coluna semanal com comentários e indicações de livros, autores e poemas. Leia mais poetas.

 

 

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