Leituras da Bel

Coluna À procura da poesia: Flores de Alvenaria, Sérgio Vaz

Por Talles Azigon (da página Poesia Brasileira)

Pode-se ler um livro de poesia sob diferentes modo – pensando na forma, ou seja, como ele é escrito, quais as palavras escolhidas, como ele se organiza, se por estrofes ou numa grande estrofe. Também é possível fazer a leitura através dos conteúdos nele impresso. OU até mesmo pelo ritmo, o jogo das palavras, com suas rimas, ritmo, e, até mesmo, pensando no jeito em que as palavras se deitam no papel.

Há mil maneiras há de se ler um livro de poemas.

Outros milhares de tipos de livros de poemas existem.

E aqui é necessário destacar esse ponto, pois algumas pessoas denominadas críticos gostam de classificar ou simplificar um livro de poemas em bom ou ruim, em presta ou não presta. Ato com grande chances de desencadear grandes equívocos e colaborar ainda mais para distanciar você, leitor, dos livros de poemas. Afinal, muitas vezes essas opiniões simplistas, ou irresponsáveis, dessas pessoas tidas como críticos, afastam o livro de poemas de lugares importantes. Como a sala de aula, por exemplo.

Sim, Talles Azigon, para que tanto palavreado, onde você quer chegar como essa introdução? Minhas queridas leitoras, meus queridos leitores, isso tudo para dizer, antes de qualquer coisa, um poema é uma expressão, e sabemos cá para nós, nem todos tem direito de se expressar e serem ouvidos nessa nossa sociedade bestialmente desigual

Mas, graças a um bocado de gente insubmissa, essa realidade vai se transformando aos poucos, no mundo e no Brasil. A aqui, um dos responsáveis por essa mudança é um sujeito chamado Sérgio Vaz, melhor dizendo, Poeta Sérgio Vaz.

Sou um alvo fácil para os meus inimigos
assino poeta não só quando escrevo, mas quando vivo
escrevo coisas no papel que na boca viram guizo
olhos fracos e na boca sempre um sorriso

O quase sempre sorridente escritor de Flores de Alvenaria foi o criador da Cooperativa Cultural da Periferia (Cooperifa) e um dos criadores do Sarau da Cooperifa, que reúne comunidades e favelas toda semana para falar e ouvir poesia. Isso por si só já é motivo suficiente para lermos esse livro

Minha poesia vem das ruas
que os anjos não costumam frequentar

Entretanto, Flores de Alvenaria consegue ser ainda mais importante, ele reúne poemas, e algumas crônicas. Afinal, ninguém é obrigado a seguir padrão. Esses poemas, expressão do Sérgio, conseguem a façanha de ser expressão de muitas/muitos de nós, mulheres e homens das comunidades e favelas espalhadas pelo Brasil todo, gente insubmissa, que não aceita a realidade da Literatura ser o privilégio de umas poucas pessoas

Canto das negras lágrimas

Afundei o navio negreiro do coração,
não me sinto escravo de nada, sei nadar,
mas ele ainda singra na memória
como o sangue derramado no mar.
Do além-mar ao sul Gabão,
a dor que se vê na pele vai te afogar,
e ainda que falte ar à história
uma rima me faz respirar.

Poetas e marujos mergulham na solidão,
enquanto mergulham nos becos sujos – ou em porta de bar
do fundo da noite sem estrelas
o canto torto das galés vai se fazer escutar.

“Se o mar está calmo,
é claro que precisa escurecer.
E se me cai uma lágrima,
essa lástima vai ter que beber.”

Calar a boca branca da escuridão
como o grito retino da voz lunar
usar uma letra faminta, como isca
que belisca quem não sabe pescar.

Nas noites profundas da imensidão
um poema revolto agira beira-mar
um povo com os pés limpos de areira
outrora nau sem rumo, vai se encontrar.

E o canto torto das galés vai se fazer escutar:
“Se o mar está calmo,
é claro que precisa escurecer.
E se me cai uma lágrima,
essa lástima vai ter que beber.”

Ao amanhecer da noite, juntar as mãos
para que nenhuma fique livre pra açoitar,
vamos cuspir o navio encravado na garganta
par que em negras lágrimas não se navegue mais.

No meio, nas pontas, você encontra nesse livro muita representatividade. É um livro de cinema – onde, ao invés de só pessoas brancas, ricas e bem sucedidas – você pode ver a gente numerosa desse país. Insistentemente apagada, desacreditada, um povo artista, mas submetido a uma classificação inferior a sua arte, um povo cheio de Magia Negra. Como em um dos poemas maravilhosos no qual o poeta vai citando vários nomes de gente preta intelectual, artista, ativista, que ajuda a fazer esse mundo mais tragável

Lógico, você não vai só ler louvores, os poemas do Flores de Alvenaria também batem, de uma maneria sucinta, direta, eficaz, em textos de poucos versos, realidades expostas com maestria.

Muitas vezes,
quem tem a infância roubada
acaba furtando o futuro de alguém

E alerta-nos:
A rotina é máquina de moer gente

E nos bota a pensar:
Temporal

A mulher,
repleta de lama, chora.

O homem,
feito de barro,
desaba em lágrimas.

De aço mesmo,
só a vida
– essa lâmina cega
que corta
sempre do mesmo lado.

Você pode pegar o Flores de Alvenaria para ler no ônibus, metrô. Ele fica bem tendo por fundo o barulho da cidade, o movimento das pessoas, o Poeta Sérgio Vaz consegue olhar as frestas do cotidiano e imprimi-las nas páginas desse livro.

Salve Poeta Sérgio Vaz, salve Sarau da Cooperifa!

*Talles Azigon é poeta, editor e produtor cultura. Já publicou os livros Três Golpes D’Água e MarOriginal. Gosta de assistir Hora da Aventura, de passear na Floresta do Curió e do banho na Sabiaguaba. À procura da poesia é uma coluna semanal com comentários e indicações de livros, autores e poemas. Leia mais poetas.

 

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