Leituras da Bel

Leia artigo de Goreth Albuquerque: a tradição oral vai à escola

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Goreth Albuquerque

Por Goreth Albuquerque*

Se tem coisa que contador de história tem, seja pescador ou não, é imaginação criativa. Fico imaginando uma conversa entre René Descartes e Câmara Cascudo. E bem que o professor de direito Internacional Público da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Luís da Câmara Cascudo, seria muito bem vindo como consultor jurídico – função que desempenhou para seu estado -, para a proposta de lei 7.232/2017. Para quem não sabe, o pesquisador, etnógrafo e folclorista é carinhosamente chamado São Cascudo pelos narradores orais urbanos do Brasil. Como surgiu essa alcunha? Ah, isso é outra história!

Cascudo, introduz o livro Literatura Oral declarando que: “Todos os anos vividos no alto sertão do Rio Grande do Norte e Paraíba foram cursos naturais de literatura oral”. Meu curso natural foi a voz de Dona Rita – mulher semianalfabeta -, que desfiava o fio da narrativa passando roupa em um ferro a brasa no qual me mostrava os personagens das histórias pela minúscula porta em que se via a queima do carvão.

E eu, menina, coração palpitando, jurava que os via. Foram também os sábios provérbios de minha mãe que faziam a lei da família – Nessa casa todo mundo merece confiança até provar ao contrário: mentira tem perna curta! Ou ainda; “antes só do que mal acompanhado”, quando uma amizade em seu parecer não me convinha. Foram também as cantigas de pastoril ensaiados por minha avó materna, enquanto eu sonhava ser a borboleta. E, por fim, as músicas e os ritmos das rodas de São Gonçalo nos festejos de São Bento e das muitas e muitas festas juninas que vivi em minha primeira infância quando morei no interior do Maranhão.

Para finalizar, é inevitável não tomar de empréstimo do padroeiro dos contadores a afirmação de que este foi “o primeiro leite alimentar da minha literatura” e se estabelecia através de múltiplas vozes na tessitura do cotidiano. Parto desta referência para dizer que a história da narração de histórias do Brasil nos aponta o fato de que a forma de transmissão na qual se apoia a cultura erudita difere substancialmente do modo de acesso ao saber da cultura oral em todas as formas de saberes as quais apresenta e estes são a legitimidade da expressão do modo de pensar de grupos populares.

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Na prática social da oralidade, a transmissão e a recepção do conto se dá como parte da vida, preenchendo de experiência estética o dia-a-dia, sem que haja um método preciso, um estudo sistemático a partir de um conjunto de prescrições que confira autoridade a quem profere a palavra. É um experiência estética ancorada no campo relacional, acontece e se nutre do encontro, na sociabilidade e na comunicação entre quem fala e quem escuta e são os ouvintes da comunidade quem legitimam a grandeza daqueles que se emprestam à narração. Estes são os mestres e mestras narradores tradicionais, orgânicos ou naturais, como queiram, que ainda coexistem em todo o Brasil, lado a lado com os novos narradores e seguem mantendo essa ligação entre o ser humano a palavra.

Confrontar este cenário da tradição com o cenário do surgimento de um campo de atuação de profissionais que se exprimem artisticamente como contadores de histórias, é fundamental para afirmar que qualquer política pública de reconhecimento profissional deve começar pelo consideração daqueles que nos precedem, inclusive para dialogar com outras políticas voltadas para o patrimônio imaterial e para o fortalecimento da cultural oral conforme previsto no plano nacional de cultura.

Partindo deste ponto, então podemos falar das novas formas da arte da narrativa que vêm surgindo e se reafirmando no cenário artístico cultural a partir dos anos 1980 no Brasil. Quem é o novo contador de histórias? É possível definir uma identidade? Como se dá sua prática social de contar histórias? Como se apropria do conto? Através de outras fontes orais ou do texto? Quais suas principais dificuldades? Estes e outros questionamentos – e as respostas dadas -, contribuem para a reflexão individual e coletiva; fala da construção da poética de cada narrador e do lugar social que ocupamos.

Goreth Albuquerque

O lugar social dessa arte nos dias atuais e seus modos de apropriação passam necessariamente por pensar qual referência de cultura estamos adotando. Se só acreditamos na visão iluminista de conhecimento, originária de apenas uma das três matrizes básicas que nos origina – europeu, branco, elitista e elitizado -, cujo modo de ver e organizar o mundo difere das outras duas, precisaremos mesmo da transmissão escolarizada, academicista.

Porém somos muito mais do que só os europeus como povo, e, assim sendo, temos que dar o devido valor e lugar as nossas matrizes africanas e indígenas e ao modelo de transmissão de saberes da oralidade, ainda que o ponto de partida do narrador atual seja o texto, a palavra escrita, a palavra fixada no papel, sem vinculação com uma comunidade; mesmo que a elaboração poética de seu trabalho aconteça na interface com outras formas expressivas, como as artes cênicas, a música, o mamulengo.

Dizer isto, me parece não só importante, mas absolutamente fundamental para questionar a legitimidade da exigência de obrigatoriedade de um curso, como requisito para o exercício da profissão de contador/contadora de histórias, no texto da proposta de lei 7.232/2017. A necessidade de acesso à políticas públicas de cultura não pode justificar uma política de formação de profissionais da arte de contar histórias que reafirme o conflito de poder instaurado no campo do conhecimento por se fundamentar em uma compreensão de modelo de mundo que desmerece, desvaloriza, desconsidera, todo o saber que não é aprendido em um modelo cartesiano de transmissão de conhecimento.

É preciso lembrar, antes de tudo, que não cabe às instituições do poder político e cultural, por uma dimensão ética, reafirmar modos de profissionalização cujo desenvolvimento, não só desconsidere a diversidade epistemológica de modos de conceber e organizar a vida, como ainda por cima colabore para a elitização e segregação de muitos desse campo de atuação. Por todos o contexto exposto é que a apropriação da arte de contar histórias não se caracteriza por um saber técnico que possa ser garantido em uma escola de narradores e por nenhum código regulamentar. Aos que aceitarem o desafio de tornarem-se contadores de histórias, aviso da longa e incerta jornada cuja aprendizagem não poderá ser encontra em nenhuma bibliografia e nem atestada por nenhum mestre, embora ter um mestre possa ser de grande ajuda para buscar pistas.

Sem perder de vista que respondo ao questionamento da necessidade de um curso a partir do projeto de lei, é importante apontar outro problema e|m sua proposição, também no artigo 2º, que é o uso instrumental da narrativa, quando propõe a “(…) contação de histórias como instrumentos didático-pedagógicos do processo de aprendizagem (…)”. Assim proposta, estabelece limite estético aos que fazem da transmissão do conto através da oralidade seu trabalho artístico, inclusive contrariando o fenômeno de renovação do conto nos grandes centros urbanos que, conforme já mencionei, vai traz consigo novos modos de transmissão e a aproximação com outras linguagens. Também fragiliza do ponto de vista financeiro pela restrição do campo de atuação reservado ao espaço escolar, muito embora a escola tenha sido um dos principais espaços de acolhimento do novo contador de histórias, não podemos nos manter circunscritos a ele.

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Percebo que a restrição de espaços de trabalho e a ausência de políticas culturais para oralidade faz do aspecto financeiro um dos principais desafios dentre os quais o contador de histórias tem que se deparar, talvez tão complexo quanto o repertório de saberes o qual precisa, experimentar, pesquisar e se apropriar. Porém a instabilidade econômico-financeira da categoria não pode torna-se argumento que aponta como solução uma regulamentação elaborada sem ampla participação popular e cuja pressa de aprovação aponta a institucionalização do repasse de como fundamento essencial ao trabalho notadamente porque contraria a tendência mundial de que qualquer emprego que se exerce de forma remunerada pode ser considerado trabalho, salvo as práticas que põem em risco a vida de terceiros.

Essa discussão sobre a profissionalização do narrador oral e a necessidade de um código que a regulamente vem acontecendo em diferentes momentos em vários países, da Europa à América do Norte. Em comum, a reinvindicação de que no código de ocupações passe a ter definição própria, saindo do guarda-chuva das artes cênica – não, não somos atrizes ou atores -, muito embora haja muitos deles também na narrativa oral. Isso sim, seria um avanço, desde que seja fruto de uma discussão ampla com o segmento.
Amadou Hampâté Bâ, escritor e etnólogo malinês, profundo conhecedor da tradição oral, em seu texto clássico A Tradição Viva, diz da fala humana como poder de criação, explica que fala é força e, por isso, vida e criação. Essa concepção me remete ao precioso Manuel de Barros com o verso sobre repetir, repetir, repetir até ficar diferente. Nós, contadores de histórias, criadores de mundo com a palavra, repetidores fecundos, vamos repetir sobre o despropósito dessa escolarização até ficar diferente, porque a didática do mesmo poeta já nos ensina que “o esplendor da manhã não se abre com faca”.

*Goreth Albuquerque é narradora oral, pedagoga, arte terapeuta, professora da Escola de Narradores de Fortaleza.

**Os artigos não refletem necessariamente a opinião do blog.

 

 

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