Leituras da Bel

Coluna Rubrica: Porque é fácil ler o “Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna

Cena do filme O auto da compadecida

Por Tetê Macambira*

A repórter elogiou Suassuna pela ideia do gato que “descomia” dinheiro e o dramaturgo logo respondeu que não era dele, não, mas a ideia ele tirara de um cordel de um cavalo que descomia dinheiro, e a repórter logo em seguida quis emendar elogiando pela ideia do enterro da cachorra, e novamente Ariano repete que era não era dele não, era de um outro cordel. Avexada, sem nem saber mais onde errar, a repórter dispara: “Afinal o que foi que você fez?” e Ariano sem nem titubear um só instante, ali, na bucha!: “Ora! eu ESCREVI a peça!”.

E afinal de contas, por que Ariano Suassuna conseguiu essa façanha de, no Brasil e em pleno século XX, ser reconhecido como dramaturgo? Bem, tem a facilidade de ter essa peça de teatro recebido uma versão estendida para a TV, e depois ter sido reduzida para um filme – e ambos, TV e cinema, têm um maior alcance público, sem dúvida nenhuma, o que conta muito para que as peças de teatro do Suassuna tenham caído no gosto do povo talvez se deva a dois fatores:

1. A linguagem utilizada é inspirada no cordel, gênero popular, facilitando a primeira incompreensão do texto teatral, sedimentada na estrutura dialógica (forma de diálogo), bem diferente dos textos narrativo e poético;

2. que Ariano tenha feito teatro para teatro; sem ser nem didático tampouco panfletário. O que mais se vê, desde o tempo dos jesuítas, é o teatro sendo usado como recurso pedagógico e/ou instrumento de manipulação política. E Ariano prima por um teatro que pretende contar histórias, divertir e emocionar ao mesmo tempo – teatro para teatro, simplesmente, sem nenhuma outra intenção educativa.

Ter assistido à minissérie na TV e ao filme faz com que as vozes do elenco ecoem na cabeça enquanto leem-se as falas e sente-se a ausência da Rosinha, personagem inserida para causar romance na telinha.

(…) o autor gostaria de deixar claro que seu teatro é mais aproximado dos espetáculos de circo e da tradição popular do que do teatro moderno.

Estrutura antiga
Suassuna resgata a ideia do CORO do teatro da Grécia antiga – um grupo de atores que narrava concomitantemente, quase uma locução em off – só que utiliza a versão brasileira para o bufão medievalesco, o nosso palhaço, que ganha ironias enquanto comenta a peça, e a crítica à igreja é bem focada, quando há reunião entre o bispo, o frade, o padre e o sacristão:

PALHAÇO – E agora afasto-me prudentemente, porque a vizinhança desses grandes administradores é sempre uma coisa perigosa.

O palhaço passeia pela cena, ora aparecendo, ora desaparecendo e quando tem oportunidade, faz-se ouvir… embora logo seja calado… tal qual o povo.

Ariano Suassuna

Falas que ficam
Cheia de frases de efeito, talvez a melhor seja a do Chicó, remetendo à morte – tema, aliás, recorrente em todo o texto, afinal, quem é vivo morre.

CHICÓ – (…) Cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre.

E com o cangaço e a situação de fome e desigualdade social, a morte é uma tocaia eterna para cada um dos integrantes. E talvez, por isso boa parte da peça se passa no “julgamento do céu”, porque a morte é iminente e espera-se, pelo menos, a justiça divina.

CHICÓ – (…) você sabe como esse povo rico é cheio de agonia com os mortos. Eu, às vezes, chego a pensar que só quem morre completamente é pobre, porque com os ricos a agonia continua por tanto tempo depois da morte, que chega a parecer que ou eles não morrem direito ou a morte deles é outra.

A Compadecida
Nossa Senhora não poderia ter outro nome; surge quase que no fim da peça, invocada por uma jaculatória cheia de graça sertaneja recitada por João Grilo. E é chamada por ter sido gente em vida, não filha de Deus, e por ser gente, ter mais compaixão, agir como advogada dos réus. E Maria vem maternal, compreensiva, compassiva – dando uma reviravolta no desfecho que prometia ser infernal. A defesa dela de cada um dos réus peca por ser humano, demasiado humano, sabendo se pôr na pele do outro, tentando entender a dor alheia que teria inclinado ao erro. Talvez um convite do autor para que saibamos relevar os defeitos alheios conhecendo a motivação do outro? Se não foi intencional, fica a dica. 😉

Romance ausente
A Rosinha, para todos que viram o filme, é uma ausência que nem se faz sentir, porque há uma sucessão de eventos ocorrendo que mal se dá para se aperceber que falta a mocinha, a namorada de Chicó e filha de Antônio Morais. Na peça, o major tem um filho que nem aparece em cena, apenas é mencionado.
Interessante notar que mesmo sem uma dupla romântica, sem um casal, a história evolui bem e sem tropeços.

Atemporalidade
Espantoso que uma peça dos anos 50 do século passado ainda tenha um público formidável e que compreende toda a estrutura. O que só reforça o quanto a linguagem popular permanece viva.

O Auto da Compadecida foi encenado pela primeira vez a 11 de setembro de 1956, no Teatro Santa Isabel, pelo Teatro Adolescente de Recife, sob direção de Clênio Wanderley (…)

E esse registro está incluso em uma das primeiras páginas do livro, porque o teatro difere dos outros gêneros havendo o costume de se publicar o texto teatral apenas depois de ser encenado. Costume este não mais tão seguido à risca. Infelizmente, muitas das peças encenadas nunca foram publicadas.

Publicações
O livro é facilmente encontrado nas livrarias e/ou sebos, da editora Agir. Também vendido em formato digital. A última edição da Agir traz uma ilustração primorosa de capa remetendo à arte popular da xilogravura e uma pequena fortuna crítica.

Sentimento final
O melhor dessa peça é que ela não cansa o leitor nem tampouco apresenta dificuldades para quem nunca se aventurou em ler o gênero teatral. Leitura familiar, de censura livre e de fácil aplicação para o presente, porque – infelizmente – o poder continua dividindo as classes sociais. Além da leitura fluida e divertida, sempre tem um quê de incômodo nos questionamentos do julgamento. Afinal… quem merece ser julgado depois da morte se a vida já nos é tão dura?

*Tetê Macambira é trabalhadora da palavra, pretende ler mais do que a vida permitiria porque o vício das letras já lhe entranhou nas veias. E vem mui orgulhosamente participar deste blog no intuito de divulgar a frase Leiam teatro também! – e o convite está sendo feito a cada quinze dias neste mesmo canal.

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