Leituras da Bel

Leia a crônica “A idade que realmente tenho”, de João Paulo Matos

Ilustração: Jéssica Gabrielle Lima

Por João Paulo Matos*

Muita gente diz que eu não aparento a idade que realmente tenho. Discordo, graças a mania besta: investigar meu rosto no espelho. Muito comum – e acho que comum a todos – perder mais tempo que o necessário a olhar as dobras novas, os sinais, as marcas do tempo escritas por sobre a pele, denunciando nas entrelinhas aquilo que o tempo varreu, os açoites que vento afagou. Mas, não, não é narcisismo. É uma busca – sempre -, uma tentativa de reconhecimento: onde será que, por baixo dessa pele, eu estou? O que dos vincos abaixo dos olhos, que aparecem quando os espremo, é meu de fato? É uma tentativa de me saber eu, em mim. Mais que um traduzir-se, um interpretar-se.

O quê disso se faz, contudo, no fato de não conter esse olhar meticuloso apenas pra mim. Nisso, acabo por tentar mapear também rostos alheios e não raro me desencontro a memorizar o rosto de minha mãe e a identificar nos amigos mais chegados um gesto que lhes é comum desde criança. Por isso, se, porventura, alguém se encontrar com meu olhar perdido e sentir observado, não leve a mal. Até porque, não, não o é. Mesmo. É só velho hábito de gente calada, o olhar. Provavelmente, eu só esteja tentando guardar algo que me traga algum reconhecimento, se um dia nos esbarrarmos novamente, algo que me faça saber que você é você. Só.

Pois, bem, que certo dia estava eu na fila de um caixa e tropecei num rosto muito singular. Tropecei e caí. Lá fiquei por uns instantes. Demarquei a bochecha, que talvez formasse covas quando de um sorriso. A cicatriz na testa de uma possível criança dana ou de uma paulada. Vai saber. Mas o que ficou em mim foi a esquiva. O modo como a pessoa desviou-se, a olhar pro chão, como que pra se esconder. Não culpo. Erro meu.

A crônica

Erro meu. Não me dei conta, de pronto, que há grupos de pessoas, nesta nossa sociedade torta, que estão habituados a temer, a se esconder, a lutar contra o que são por natureza. Culpa nossa. Culpa minha também, em algum grau – talvez até muito maior do que eu possa ver. Pessoas que são forjadas por uma dor que talvez nunca lhes transpareça no olhar, que não lhes quebre o sorriso, que talvez, na realidade, lhes faça caminhar ainda com passos mais retos nessa estrada torta. Mas que está lá, no silêncio solitário do ônibus; no espelho do banheiro, à noite; no passo furtivamente esquivo na fila do caixa… tudo tão pequeno e tão comum, que ninguém vê. Mas está lá e, talvez mais do que qualquer outra marca, faz dessas pessoas o que são.

*João Paulo Matos é formado em Letras, revisor textual e estudante de Direito. Quer escrever, tocar violão e assistir filmes de heróis.

Recomendado para você