Leituras da Bel

Poesia: a partir de oficina com Angélica Freitas, Sara Síntique escreve textos exclusivos para o blog

Ilustração: Jéssica Gabrielle Lima

Por Sara Síntique*
A poeta cearense Sara Síntique escreve poesia quinzenalmente para o Leituras da Bel. Nesta terça-feira, 3 de outubro, ela enviou poemas feitos a partir dos exercícios do “Laboratório Poético: escrita e edição de poemas”, ministrado por Angélica Freitas, durante a Festa Literária Sete de Setembro. “Obrigada, Angélica. Obrigada, Nina”, diz Sara!

Leia poesia!

(para Mikaelly Andrade)

talvez fosse proibido estar aqui
porque talvez alguém diga
inútil estar aqui
respira noutro lugar
porque talvez alguém diga
cessar roer as unhas
pentear bem os cabelos
respira respira (noutro lugar)
talvez melhor não ter lido
reforma trabalhista a palavra gauche
tão cedo ter ouvido aquela canção (tão cedo)
talvez fosse proibido estar aqui (mas continua)
esperando uma rajada de vento

***

teu suor logo cedo

teu suor meu corpo quente

teu suor: não há vento

teu suor inunda tudo e

não basta minha sede

*****

exercício somático a quem queira escrever um poema

(inspirado em Ca Conrad)

sente-se sob uma escada por alguns segundos apenas por alguns segundos escute as vozes na memória que te avisaram sobre o azar de passar por baixo das escadas o azar sinta algum receio de estar sob ela / sobre teu corpo sentir um peso o peso dos pés que sobem e descem para chegar a algum lugar que sobem e descem (pra quê?) e teus pés não se movem teus pés não caminham olhe veja os pés lembre a última vez que cortou as unhas lembre a última vez que teve vontade de beijar uns pés não importasse donde eles tivessem vindo porque uns pés tão amados não importa donde tivessem vindo teriam sempre um cheiro de jasmim um cheiro que te dá uma vontade de correr / mas você não corre sequer move os pés esquece o azar tudo é o cheiro de jasmim tudo é o peso desses corpos sobre teu corpo que vão e vem (pra onde?) tudo é o peso: escreve / e depois tendo esgotado a palavra (já não basta ao cansaço) levanta observa os passantes não há cheiro de nada nada nada se move além deles nada / vai embora / silencia / amanhã (tão cedo) escreva um poema sobre o vento – esse que não há ou que não vem.

*Sara Síntique é poeta, atriz, performer, mediadora de leituras e educadora. Mestra em Literatura Comparada pela Universidade Federal do Ceará (UFC), onde também se graduou em Letras Português – Francês. Nasceu em Iguatu (CE), em 1990, e reside em Fortaleza desde 2001. Autora do livro de poesia Corpo Nulo (Editora Substânsia, 2015). Escreve poemas quinzenalmente para o blog Leituras da Bel.

 

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