Leituras da Bel

Ao pé do ouvido: Baladas para Leitores e Kazuo Ishiguro

Kazuo Ishiguro

Por Lilian Martins*
O vencedor do Nobel de Literatura 2017 Kazuo Ishiguro é autor de um mood composicional lítero-musical. O escritor nipo-britânico, de 62 anos, transita por diferentes linguagens artísticas: literatura; cinema; teatro e música, isso explica sua diversificada produção composta por romances, adaptações fílmicas, peças de teatro e letras de canções.
Nascido em Nagasaki, no Japão, em 1954, Ishiguro levou o Nobel porque, “em seus romances de grande força emocional, revelou o abismo sob nossa sensação ilusória de conexão com o mundo”, segundo o discurso oficial da Academia Sueca. Essa melancólica percepção do sujeito no mundo é experimentada em histórias de habitantes solitários, em cadências emotivas jazzísticas de personagens como Raymond e Lindy Gardner de Noturnos (2009). Aliás, a própria atmosfera de obscurantismo é evidenciada pelo título do livro em homologia ao gênero musical do “noturno” criando, assim, o espaço literário noir desta obra arrojada do ponto de vista estilístico, mas ainda vista como menor diante da extensa produção romanesca do escritor.

Conheça Kazuo Ishiguro

Kazuo Ishiguro é considerado um dos autores vivos mais importantes de língua inglesa e responsável por reinventar o universo fantástico de George R. R. Martin e Tolkien em seu romance O Gigante Enterrado (2015). Além deste, são de sua autoria mais seis romances e uma coletânea de contos, cinco deles publicados no Brasil pela Companhia das Letras e o seu livro de estreia Uma Pálida Visão dos Montes (1982) pela Rocco.

Dessas obras, duas ganharam aclamadas adaptações para o cinema: Os vestígios do Dia (1993), estrelado pelo ator Anthony Hopkins e inspirado em obra homônima vencedora do Booker Prize de 1989, e Não me Abandone Jamais (2010), dirigido por Mark Romanek, ambos roteirizados por Ishiguro que também assina o roteiro de A Condessa Branca (2005), estrelado por Ralph Fiennes e Natasha Richardson.

Conheça mais sobre seus livros:

Traduzido para 28 países, o que mais surpreende na literatura deste escritor é a reinvenção linguística de Noturnos: Histórias de música e anoitecer (2009). A obra rompe com a solenidade distendida aos romances e traz um frescor estético para a sua linguagem, desta vez, concisa, leve e de um humor refinado e crítico sobre o ser artista e sua obra de arte. O primeiro livro de contos de Ishiguro é inspirado nas composições musicais para orquestra e está dividido em cinco narrativas, podendo ser lido, por analogia, como cinco movimentos de um concerto. Neles estão equalizados elementos característicos da sua produção bibliográfica: a memória e os desenganos do tempo, o maravilhoso e o mistério, os finais ambíguos e, em especial, a música. Em Noturnos é a música quem embala o leitor e marca o ritmo das personagens sempre em trânsito, desconstruídas entre a genialidade e a humanização ridicularizada, por um riso nervoso, frente ao absurdo do profissionalismo e à sombra do desejo artístico.

Desta feita, a Academia Sueca nos convida a ler e ouvir mais e melhor Kazuo Ishiguro!

Aumenta o som e boas leituras!

*Lílian Martins é jornalista, tradutora, professora, pesquisadora e militante em Literatura Cearense. Mestre em Literatura Comparada pela UFC com a dissertação: “Com saudades do verde marinho: O Ceará como território de pertencimento e infância em Ana Miranda”, vencedora do Prêmio Bolsa de Fomento à Literatura da Fundação Biblioteca Nacional e Ministério da Cultura (2015) e do Edital de Incentivo às Artes da Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor) em 2016. É uma apaixonada por rádio, sebos, pelos filmes do Fellini, os poemas de Pablo Neruda e outras velharias…

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