Leituras da Bel

Coluna À Procura da Poesia: Djavam Nascimento e A Literação

 

Djavam Damasceno

Pitágoras afirmou “todas as coisas são números”. Deixando-me um problema quase insolúvel: se todas as coisas são números, o poema é uma coisa, logo a poesia também é número? O poema é uma invenção tão matemática quanto a música e a bomba atômica? Divagações à parte, vocês leitoras e leitores estão acostumados a ganhar tudo de mãos beijadas. Precisam saber – não da piscina, da gasolina nem da cartolina – mas, sim, da mais recente obra publicada pelo poeta Djavam Damasceno, que saiu pelo Selo do Coletivo A Literação, formado por alunos do curso de Letras da Universidade Federal do Ceará.

O livro foi concebido em formato de Zine, com fortes traços e referências em seu projeto gráfico. Já que falamos também em matemática, um artista cearense geométrico, Sérvulo Esmeraldo, foi homenageado por um dos poemas da obra.

O que nos interessa… Relembrando sempre a razão maior de existir dessa coluna: é mostrar quão divertido, interessante, gratificante, instigante, trágico, cômico e todos outros sentimentos e reações possíveis pode nos ser a leitura de um livro de poemas.

Nesse caso vou chamar atenção para um fato, o modo como os poemas se apresentam, como eles estão impressos. Afinal, um poema é uma geometria dentro da geometria do papel. Seu comportamento, reto, curvo, seus ângulos de vista também são imprescindíveis para o aproveitamento da leitura.

Os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, aqui no nosso país, se preocuparam muito com essa geometria. Nos Estados Unidos um outro poeta, E.E.Cummings, também se aplicou nesse aspecto do poema. No Ceará, o Poeta Djvam igualmente. O livro não possui título, talvez porque a forma não tem nome, só tem se a nomeamos.

Um exemplo dessa geometria tão exaustivamente citada aqui é o poema intitulado 5 poemas.

Como sugere o título, teríamos 5 poemas nessa mesma página, mas dada a organização deles, a escolha de colocá-los em uma página só, e um aparentemente mesmo tema permeando todo ele, parece querer nos despistar para a conclusão de que na verdade ele é um poema só. Contudo aceitemos e isolemos um desses 5.

Conseguimos ler a palavra ar, colocado em quatro cantos formando um quadrado, no meio desse quadrado a letra m; independente da direção que decidirmos fazer a leitura localizaremos três palavras, ar/mar/armar

Ora, meu povo. É como se ar, em junção com o mar, forme uma armação. Daí podemos nos encaminhar para duas perspectivas: armar na perspectiva de prover um armamento (no sentido bélico) para os elementos da natureza ou armar na perspectiva de construir, como constroem os engenheiros e os poetas, igual ao concreto que depois de receber um esqueleto de ferro vira um concreto armado.

Independente do caminho de leitura que você escolheu cabe uma pergunta: se o ar e o mar, que são duas potências da natureza e bem rebeldes, não se deixam dominar tão fáceis, porque o poeta Djavam resolveu por eles em um quadrado? Logo um quadrado, que para nós tem em sua palavra a conotação negativa de algo preso em si mesmo.

Eu não sei a resposta, tenho até minha suspeita, contudo eu quero mesmo é deixar mais uma pergunta: seria no fim das contas a poesia uma armação?

A Literação

Para adquirir o livro/zine do Djavam Damasceno você pode entrar em contato com o coletivo responsável pelo selo A Literação nos seguintes contatos:
zinealiteracao@gmail.com

Boa leitura!

*Talles Azigon é poeta, editor e produtor cultura. Já publicou os livros Três Golpes D’Água e MarOriginal. Gosta de assistir Hora da Aventura, de passear na Floresta do Curió e do banho na Sabiaguaba. À procura da poesia é uma coluna semanal com comentários e indicações de livros, autores e poemas. Leia mais poetas.

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