Leituras da Bel

Coluna Ao pé do ouvido: Baladas para leitores e Pedro Lyra

Pedro Lyra

Por Lilian Martins*

Para Pedro Lyra in memoriam 
a quem o rádio não temia sua poesia.

A morte é mesmo este assombro, nos cruza a esquina da vida e nos encontra num último tropeço rente ao caminho nosso de (des)tino. Por entre as inúmeras rotas que nos guia, é ela a certeza da tênue linha de chegada e tal qual o imprevisível deste infortúnio encontro, eis que a morte surpreende – novamente – ao alcançar os passos de um dos nossos mais importantes poetas: Pedro Lyra (1945-2017).

O professor de poética da Universidade Estadual do Norte Fluminense começou sua carreira literária ainda muito jovem em Fortaleza, fez parte de uma geração, a SIN, que acreditou na força da palavra poética contra os descalabros do regime ditatorial, da censura e da tortura. É dele o livro Poema e Letra-de-música: Um confronto entre duas formas de exploração poética da palavra, publicado pela editora CRV, obra referência nos estudos em literatura e de leitura obrigatória para quem deseja discutir – epistemologicamente – o dual: poema x canção.

A obra, lançada em 2010, refuta cientificamente o empirismo simplório daqueles que categoricamente defendem se tratar da letra-de-música uma poesia e/ou pior de que letrista é também poeta. Sem verborragias de eruditismos, o poeta e crítico, devoto fervorosos da MPB, traz em uma linguagem ensaística os contornos próprios da linguagem desfazendo misticismos em torno do poeta e também caracterizando a letra-de-música minuciosamente.

O estudo é o resultado de sua pesquisa de pós-doutorado na Universidade de Paris-III/Sorbonne Nouvelle, ao longo dos anos de 2004 e 2005, mas que tem sua origem, em 1989, durante o I Congresso da Associação Portuguesa de Literatura Comparada, em Lisboa. Para o autor, tanto a música quanto o poema são formas de exploração poética da palavra e utilizando desde teóricos como Voltaire, crítico de clássicos da literatura de seu tempo em Candide, Pedro Lyra corajosamente encara os músicos de nosso tempo para um embate teórico sobre poesia e subverte a crítica musical denunciando, por exemplo, a perda de espaço do poema para a música popular frente à invenção dos meios de comunicação de massa.

É neste cenário que o pesquisador se questiona sobre o espaço existencial do artista, bem como de sua matéria de criação, neste caso, a poesia na sociedade, na História e, sobretudo, no cotidiano das pessoas que ainda consomem bens culturais de valor.

Ao nos dizer: “Os significados são consensuais: poema e letra têm um mesmo, interno e próprio – a mensagem do texto. A questão se concentra cantes: nem palavra nem melodia, sozinhas, significam muito”. Pedro Lyra nos propõe um estudo comparativo de formas artísticas que esmiúça os dois tipos de texto desde a sua estrutura até o consumo e por isso a crítica final afirmando que “a televisão tem medo da poesia”. São 14 modalidades cuidadosamente estudadas e ao fim quem ganha somos nós leitores que temos a oportunidade de um estudo teórico profundo sobre o gênero canção.

Aliás poesia e música eram temas recorrentes também na vida de Pedro Lyra, alguns de seus poemas foram musicados e lançados no cd Redesafio com quem divide parceria com uma de suas filhas, a linda e talentosa Lienne Lyra, intérprete de sambas pra fazer até quem é doente do pé e ruim da cabeça se emocionar.

Eis um registro de Lienne interpretando o poema do pai “Soneto do amor perdido” e dividindo com ele o palco e a voz poética do qual o artista tanto investigou e fez ecoar em seus livros e inúmeros artigos sobre o tema:

Para o poeta que nos afirmava ser a vida uma “sinuosa linha da poesia”, eis o encerramento desta coluna com o desejo profundo de que novos leitores o revisitem e conheçam suas obras e mais ainda que em matéria de literatura e música não deixem de referenciar a obra aqui apresentada. O homem por trás dos versos esfumaçados de cigarro se foi, mas seus poemas e, sobretudo, sua crítica literária permanece como valoroso contributo para os estudos literários de nosso país.

Um desejo
– súbito nascido
da perspectiva de um Bem.
Ou se persegue,
pela esperança de triunfo;
ou se desiste,
pelo pressentimento do fracasso.
E sobrevém o acontecimento:
ou uma conquista,na consumação do esperançado;
ou uma falha,
na confirmação do pressentido.
Na sequência da trama
– da frustração ou do desfrute –a perda,ou por desgaste da vivência
ou por falência do ser.
E na sequência da perda
só resta a recordação,
como restauração
transfigurada
do desejo.
Esta é a bifurcada linha da vida
que é a sinuosa linha da poesia.

Pedro Lyra

Para saber mais: Poema: A Linha da Vida. In: Protesto: Estados de Ser. Ibis Libris: Rio de Janeiro, 2014.

Aumenta o som e boas leituras!

*Lílian Martins é jornalista, tradutora, professora, pesquisadora e militante em Literatura Cearense. Mestre em Literatura Comparada pela UFC com a dissertação: “Com saudades do verde marinho: O Ceará como território de pertencimento e infância em Ana Miranda”. Vencedora do Prêmio Bolsa de Fomento à Literatura da Fundação Biblioteca Nacional e Ministério da Cultura (2015) é do Edital de Incentivo às Artes da Secretaria de Cultura de Fortaleza (Secultfor) em 2016. É uma apaixonada por Rádio, sebos, pelos filmes de Fellini, os poemas de Pablo Neruda e outras velharias…

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