Leituras da Bel

A “gentinha brava” de João Guimarães Rosa

Sarah Diva Ipiranga*

No cenário literário que tem a criança e o mundo infante como protagonistas, merece destaque a obra de Guimarães Rosa. Considerado um autor complexo, hermético e de difícil leitura por alguns, esse “bicho abelha”, como ele se denominava, povoou sua obra de personagens infantis luminosos, diferenciados, insurgentes, e trouxe para a literatura uma nova configuração da infância.

Para abrir a porta (ou curral) para os meninos de Rosa, destacamos algumas obras que trilham um percurso em veredas tão delicadas. Falamos de Campo Geral (1956), no qual assoma Miguilim, personagem que é um marco na representação da infância dentro da literatura brasileira, e Primeiras estórias (1962), uma coletânea de contos nos quais as crianças tomam as narrativas a seu favor. Merece referência também Ave, palavra (1970), livro póstumo, no qual se destaca “Fita-Verde no cabelo”, uma nova versão de Chapeuzinho Vermelho criada por Rosa e um dos seus textos mais pungentes.

O que inventaria todos esses textos é capacidade ressignificativa da infância frente à frustração e às perdas impingidas pelos adultos e a capacidade de encantamento da personalidade infantil. Esse primeiro movimento, centrado nas tramas vivenciadas por cada um dos personagens, encontra uma modelação singular na linguagem, através da liberdade que caracteriza o imaginário da criança (“Era uma viagem inventada no feliz”) e da insubordinação e tentativa de autonomia em relação aos códigos, sejam eles sociais, familiares ou linguísticos (“mas só bis-viu”) que, canônicos e estáticos, procuram fazer da infância um espaço de coerção.

Se em Miguilim o peso das cobranças quase afunda a infância do personagem, nos contos de Primeiras estórias e Ave, palavra, o infantil desponta com luz diferenciada. Vivendo à parte da civilização e da ordem, constroem um universo onde a alegria do rei Bemol tenta imperar. Para tanto, muito pouco é necessário: um riachinho, uma brincadeira, uma cantoria, um peru – singelos artefatos da infância que são colhidos e colocam o leitor a se balançar nesse movimento tão especial das narrativas.

Rosa, que diz não ter gostado de ser criança, pois viu sua meninice “como pátria ocupada”, conseguiu, como poucos, ser um narrador que deixou a criança falar mais do que falar por ela. Nhinhinha, Ciganinha, Pele, Breijerinha, Miguilim, são Meninas e Meninos desse Brasil dos sertões, vivendo nas Serras do Mim e do outro, audazes navegantes de sua história.

*Sarah Diva Ipiranga é pós-doutora em Literatura Brasileira pela Universidade de Lisboa, coordenadora do Grupo de Estudos Autobiografia, Memória e Identidade e professora da Universidade Estadual do Ceará (Uece)

 

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