Leituras da Bel

40 anos sem Clarice Lispector: cada esfuzilante sílaba

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Clarice Lispector

Por Charlene Ximenes

“Mas a vida arrepiava-a, como um frio”. Lembro de ter lido esse trecho, da provável primeira vez que tive contato com Clarice Lispector, de quando li o conto Amor, em sala de aula. Eu era uma jovem cheia de reflexões sobre si e que pouco ou quase nada compartilhava com os outros. Senti, de algum modo, que aquela mulher escrevia para mim, que me lia, que ao tentar se decifrar, decifrava-me, como se cada esfuzilante sílaba, cada palavra, pintasse um inatingível. Passei a viver verdades inventadas e, gradualmente, os livros de Clarice Lispector me escolheram. Sim, não me foi permitido decidir por eles, pois eles eram viscerais demais.

Passei a viver uma vida a vida, geralmente minha, nas madrugadas, lendo em voz alta livros sobre os mais variados assuntos, mas quando eu retornava, descobria ou redescobria alguma obra da Lispector, a sensação era de diálogo, como se alguém estivesse a me dar a mão, confrontando-me sobre a falta de sentido da (minha) existência. Reconfortando-me sobre esse estreitamento que carrego no peito. Ler Clarice é um alívio. Um sopro de vida. Uma busca por uma felicidade distante, quase clandestina.

Saber que continuarei a ter perguntas que não possuirão respostas me faz crer, mais que tudo, que tenho o direito ao grito. Já cheguei a escrever poemas imediatamente depois de terminar um livro dela, não por eu ser poeta, mas para exercitar minha alma, pois é sempre assim que me sinto depois do turbilhão que sua escrita me causa no peito, com a alma arrebatada e o coração em desordem. A sensação do mergulho na literatura de Clarice é dicotômica, confusa e dialética, seus universos misturam-se, mas não se confundem.

Alguns de seus livros são para mim como “Uma aprendizagem”, e sei que retornarei para eles inúmeras outras vezes, mesmo sentindo quão doloroso foi para ela escrevê-los e é para mim, escrever-me.

Clarice Lispector

Ler Clarice é, sobretudo, compreender que a solidão faz parte daquele que sofre de vida. E de amor. Ler Clarice é aprender que o encantamento pelos livros arrepia.

Charlene Ximenes é historiadora, formada pela Universidade Estadual do Ceará, com especialização em História do Brasil pela Universidade do Vale do Acaraú. Formou-se também em Turismo, pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará. Lê Clarice Lispector desde 2004.

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