Leituras da Bel

Cartas as Poetas do Nosso Tempo: Amanda Albuquerque, Amanda de Freitas, Isabely Cunha, Ilana Alves, Jéssica Cisne

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Por Nina Rizzi*
quem tem medo das mulheres que se juntam? Das mulheres que escrevem?

queridas:

não escondemos mais as poemas. se desde o sempre nos impuseram inúmeras razões para o não-isso o não-porquê-não, abrimos sim a boca e as mãos. sim, as pernas.

 

entre as minhas pernas, uma caixa de glórias. vale de lágrimas, tesouro?
quem saberá se não?
mulheres agonizam em minha caixa: gritam, pulam, gemem.
não sei dizer a vocês mais que umas letras que guardam uma palavra toda: alcachofra. al. ca. cho. fra.
essa que quase ninguém quer.
olhos as alcachofras-mulheres que se deslindam cá dentro. mais perto, mais juntas.
como seria não as amar? o ser em vias de não-ser. lamber o choro.
despetalar a palavra até o sulco. pegar ela toda até o entre.
amar mais e mais.

Não escondemos mais as poemas, suas palavras de brincar, Amanda de Freitas:

“FLOR FALADA

Se eu falo e você também flor
Se eu flor e você falo
Onde é que tá errado o se
Se existe uma condição aqui construída
Onde as coisas ora se, oras são
Uma fala, um grito
Uma começa, outra não para
Nenhuma para
Nenhum grito se interrompe
Onde se uma fala
Enquanto uma grita
O teu falo para
Não tem falo
Não tem grito
Onde teu falo para
Uma fala fica
Duas falas construídas
Nenhuma se interrompe”

é verdade que a noite, sendo mulher, é escura, pura textura. Sim, Isabely Cunha: lembrar, escrever nos cura. deito todas as noites com sua letra:

“Vá para um lugar a céu aberto, durante a noite.
Deite no chão. Olhe tudo detalhadamente. Feche os olhos.
Respire fundo. Não pense em nada. Respire fundo.
Pense na palavra “amor”. Sem pensar muito, escreva cinco palavras que vem à sua mente com a palavra “amor”.
Agora feche os olhos e pense na última vez que você se sentiu plenamente feliz. Tão feliz que o coração se aquece só de pensar.
Tinha amor nesse momento?”

a letra que se emaranha colorida ao popular contemporâneo & soul de Jéssica Cisne na receita mais infalível:

 

“Uma pitada de ponha-se no seu/meu lugar,
Um toque sutil de foda-se,
Um punhado de amor próprio, com doces retoques de empatia.
Uma xícara de perda de costumes ruins.
E mel pra adoçar o veneno que é mortal quando não estancado a tempo.
Uma boa peneirada em mandingas, ritos, cultos, reuniões, preces placebo.
Pra finalizar uma dose de morte diária de sujeito normativo,
Para o nascer do desconstruído.”

Claro que nem só de amor viveremos, há muita raiva pelos séculos de misoginia, barbárie. E essa raiva toda a moveremos até o basta mais completo, até à sororidade, ao lugar de fala, ao empoderamento, ao feminismo. Até à poema numa linha reta que será dançada nua como quem grita um hardcore punk-feminista, como você nos lembra, Ilana Alves:

“Não é sobre a falta de conhecimento, é sobre a falta de entendimento. Me dói saber sobre toda a sociedade doente – decadente – que vivemos, mas me dói mais estar ao lado de pessoas que não enxergam. Que escondem. Quem têm medo do estardalhaço.

O sortilégio. Rasgar esse véu tão espesso de bondade. Bondade imunda. Bondade escrota. Cheio de escrotos. Quer saber? Que se fodam todas as bondades veladas, mascaradas, cheias de sofrimento.

À custa de cicatrizes.

Cicatrizes foram criadas para se tornar real a lembrança. Lembrança boa. Tornaram cicatrizes a lembrança do mal que foi feito. Da maldita confiança. Mal dita. Não dita.

Hoje, dita bem dita e não escutada. Ouvida e não compreendida.

Que se fodam as bondades veladas! Ou que eu, nos pequenos gestos, estardalhe todas elas.”

não estamos tão-longes. há tudo tão perto. escrevemos sempre as poemas de nos tirar do não-quero-mais, como mensagens e abraços que damos nas mulheres desconhecidas pra ficar feliz. somos todas uma. na dança, na escritura, na risada mais irmã, na dor, no medo e no medo de ter medo. Nos sortilégios pra vida que vem vir leve, no lombo da mulher búfalo branco que nos carrega com a ventania, no oriki de Amanda Albuquerque:

 

“Meia noite
Em beco escuro esgoto aberto

Ele, saído pra noite em olhos de caça

Ela, saída da gira com vento em fumaça

Segura a respiração

Confiando no fogo Iansã

De perna firme em riste

Ele engaiola em rede tecida de medos

A pomba

Que pra seu deleite nem sequer reagia

De costas no beco abriu suas pernas

E na boceta invadida meteu-lhe o pau

Ela aguardou com sorriso rosa de ouro

Ser descoberto o presente que sua mãe ali guardou

Se a despetalam a rosa, dia após dia, dor após dor

Guarda ela os espinhos dentro de sua bolseta

Bol-se-ta. Buceta.

Encravada de ódio espetala o mal que ali adentrou

(Ou pelo menos tentou)

Azar do maligno que terá o pau caído pelo espetalo de erva danosa

Cai no chão torado e ainda é capturado

Pra alimentar fogueira sagrada

Eparrey Oyá

Me protege do caminho escuro

Mas se esse for ao meu encontro

Espetale bem seguro

Pra alimentar fogueira santa

Que faz a gira girar

Oyá.”

 

a vida vem linda, manas. e além o tudo que nos sabemos juntas, além a potência da escritura e todo amor, deixo-lhes também a minha receita de poema-nova:

 

1. deixar a escrita descansar, sem parar
2. descansar os olhos da beleza, da feiúra
3. abolir a tecla backspace, silenciamento
4. escrever uma poema de amor, sem usar a palavra amor
5. guardar as palavras, todas
6. fazer diários alheios, de mulherzinha sim
7. escrever para mulheres que não conhece, estamos todas juntas
8. não esquecer ainda as três ações de uma mulher que luta, como me pediu a Jéssica, e que listo:

  1. se organiza individual e coletivamente
  2. defende o acredita com unhas e dentes, mas não é inflexível
  3. inspira outras mulheres.9. me escrevam, se escrevam. apenas escrevam, até o esgarçamento, até destruir essa língua do pai, essa língua do estado, essa língua do senhor. até excorpiar e enegrecer a língua genocida: ‘criar uma literatura que seja realmente uma literatura, uma “cultura” de enfrentamento poético que não fala, apenas de si pra si, enfrentando o horror do real; excorpiar a língua até que ela gagueje, até que ela goze, até que ela morda, até que ela destrua com violência esse passado colonial que a língua dos homens carregam e nos matam. TOMEM A LÍNGUA DE VOCÊS, NÃO NOS MATAM MAIS!

Leia poetas!

*Conheci as poetas a quem escrevo hoje no Laboratório de Escrita Criativa para Mulheres (cis e trans), que aconteceu nos dias 18 e 19 de dezembro, em Sobral/CE. Os textos aqui apresentados foram escritos na ocasião.

 

[Foto: da esquerda para a direita, ao fundo: Nina Rizzi, Isabely Cunha e Amanda Albuquerque; à frente: Jéssica Cisne, Amanda de Freitas e Ilana Alves]

*Nina Rizzi é escritora, tradutora e poeta. Tem textos publicados em revistas, jornais, suplementos e antologias. É também integrante do grupo Leituras Públicas. Gosta de saraus, de periferia, do Centro de Fortaleza e de eventos literários. Ela escreve mensalmente no blog Leituras da Bel sobre mulher e poesia.

**As iniciais minúsculas predominantes ao longo do texto são uma opção da colunista Nina Rizzi.

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