Leituras da Bel

Leia o conto “Encontros”, da escritora Branca Sobreira

Ilustração exclusiva da artista Cris Frota para ilustrar o conto de Branca Sobreira

Encontros, por Branca Sobreira*

Acordei cedo demais, a cidade estava parada, sem movimento algum, os carros estavam nas garagens e as obras silenciosas. As luzes dos postes ainda acesas, o que dava a cidade um ar fantasmagórico. Que horas deveriam ser? Onde moro nunca faz frio, mas hoje acordei tremendo. As mãos geladas, os pés dormentes. Atordoado sai da cama, pisei no chão e fiquei tateando até encontrar minhas pantufas. Me calcei ainda com os olhos fechados. Tive a impressão de ouvir uma porta batendo. Estava só? Eu sempre estava só. Um homem solitário. Ouvi um sussurro bem próximo do meu ouvido, era ela? Estava desnorteado, havia acordado cedo demais. Senti um calafrio e lembrei de uma outra vida, passada. Ela, era ela entrando na minha cabeça, roubando meus pensamentos para si. Senti o cheiro do seu cabelo e visualizei a estampa do seu vestido, vermelho. Um contraste com meu apartamento cinza, assim como a tonalidade da minha vida. Cinza, grafite, preto, embaçado, desvirtuado, acabado. Toquei meu rosto e senti as rugas no canto dos olhos. Marcas dos meus sorrisos que enrugaram a minha pele. Voltando a minha condição atual, não consigo mais dormir, sempre acordo antes de todos, minhas memórias não me dão mais tranquilidade. Fui até o banheiro, lavei o rosto, escovei os dentes. Fiz um café. Olhei pela janela e a vi, novamente, com aquele mesmo vestido, que se destacava no escuro das ruas, a meia luz. O que era realidade? Não sei mais distinguir. Abri a porta e corri ao seu encontro. Não estava mais lá. Será que esteve? Será que lembra de mim? Fui vagando pelas ruas ainda de pijama, blusa de manga comprida e calça de flanela, com um roupão grosso por cima. Ninguém poderia me avistar. Estava só novamente, um fantasma. Sentei em um banco, o sol foi aparecendo, nascendo, E mesmo com a claridade recém chegada existia uma névoa branca por toda a cidade que dificultava a visão. Ouvia os passos, mas não via as pessoas. Será que elas me viam? Então uma pessoa se aproximou de mim, estava de vermelho, sentou ao meu lado. Não era ela. Pegou minha mão, com força, e me levou correndo para dentro do parque úmido. Aquele cheiro de mata me nauseava. Ela então me contou sobre tudo, quem era, como estava, porque havia quebrado… Depois voltou para casa comigo e não saiu mais. Me deu alegria e eu senti meu rosto enrugar de novo, deve ser um bom sinal. Tive medo, mas nela preferi acreditar. Os dias voltaram a ser quentes. As cores vivas. E o de medo de queimar desapareceu. Aos poucos fui confiando, até em mim.

***

*Branca Sobreira é jornalista, foi repórter e produtora de televisão, e lançou seu primeiro livro de contos ano passado, “20”está atualmente disponível na Amazon e na Livraria Cultura. Hoje morando fora do país está escrevendo seu primeiro romance.

**Cris Frota iniciou seu movimento artístico através das ilustrações e com o amadurecimento do seu estilo transmutou também para as telas, suas influências abstracionistas levaram-na ao uso da técnica definida como color field painting, em meios a tons indecisos às vezes monocromáticos e não representativos. Repleta de muitas referências, não se define em um gênero.

Site: crisfrota.com
Instagram: @crisfrotaa

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