Leituras da Bel

Leia “Guarda-me bem e me ama também”, texto da escritora Kah Dantas

Ilustração de Bruno Marafigo

Por Kah Dantas*

O conto a seguir é resultado da visita feita pela escritora Kah Dantas e pelo digital influencer Davi Melo a uma clínica de tanatopraxia. O relato completo – incluindo as opiniões de Kah, as curiosidades e as fotografias feitas por Davi – com a  experiência está narrado aqui! Leia, leia, leia! 🙂

***

No dia em que eu morri, o sol andava a pino e o calor queimava a gente, igual metal esquentado no fogo e triscando na pele. Era uma agonia medonha e eu não tinha para onde recolher os braços.

Estávamos de moto, eu e o menino que também trabalhava lá na empresa, indo levar uma documentação ao cartório. Foi quando a gente ficou no sinal da Dois com a Três, e eu me distraí reparando numa loja de iluminação, cheia de lâmpadas, refletores e luminárias coloridas, algumas refletindo intensamente a luz do sol.

Quando o semáforo esverdeou, eu ainda tinha os olhos encandeados e não percebi que vinha ali uma Kombi velha e descatitada, pronta para avançar sobre a luz vermelha. Fomos arremessados em direção à loja que eu observava segundos antes e, depois de bater a cabeça com força na calçada, sei que a última coisa que eu vi, em vida, foram luzes de todas as cores.

Então deixaram que eu ficasse para ver os primeiros lutos e as despedidas.

Primeiro veio o pai, muito mais forte que a mãe, ver se era isso mesmo. Ficou fazendo pergunta ao menino que andava na garupa e tinha machucado só a perna e ralado um cotovelo, chorando com as mãos na cabeça, sem saber explicar a meu pai o que tinha sucedido. Mas não tinha mais jeito não.

Pai me acompanhou em tudo. Só depois é que foi buscar a mãe, que ficou toda desmantelada, o mundo interno desabado, pedindo perdão por não ter sido uma mãe tão boa, por não ter aceitado meus jeitos, por ter me falado que eu dava desgosto com aquelas coisas que eu fazia. Não dava. Que voltasse, filhinha, que seria tudo diferente. Que perdoasse. E eu perdoei, sim, ela e as lágrimas tardias, sem poder chorar também, porque já não havia como.

Pai também arranjou todas as coisas. Foi ele quem falou com minha patroa e liberou a documentação para que ela cuidasse de tudo, de todas as assistências, até a hora do funeral e do fim das coisas por lá. E ela tinha prometido que cuidariam bem de mim, que eu era família e que eles não se preocupassem com nada, que eu seria lembrada como a pessoa boa e feliz que tinha sido.

Se eu ainda tivesse coração que funcionasse, eu sei que ele teria batido como louco naquela hora, quando o carro chegou para me buscar no hospital e eu sabia que a veria na clínica, uma última vez eu a veria, não como eu gostaria que tivesse sido, mas ainda assim eu fiz questão.

Três anos que trabalhamos juntas. E eu nunca confessei que ela era a mulher mais linda e mais forte que eu já tinha conhecido. Que ela tinha sido o amor da minha vida.

Depois que me retiraram da urna, foi ela quem me preparou. Disse que cuidaria de mim, que estava bem, não tinha problema, que eu gostaria que fosse ela. Eu não soube se ela tinha razão, nem o que ela pensava quando disse essas coisas, mas assim foi.

Banhou o meu corpo feito um carinho que nunca me deu quando eu estive viva. Lavou os meus cabelos como uma devota, tirou deles o sangue e limpou a minha pele com cuidados e maneiras que teria com um recém-nascido seu. Um dia ela tinha me contado, rindo, que adorava crianças e que queria ter filhos. E eu me lembro que eu queria ter dado um beijo nela e dito que teria com ela quantos filhos quisesse. Mas eu não fiz nada disso.

Depois de estar seca, ela iniciou o procedimento de injeção, pela carótida, do produto arterial, massageando meu corpo parte a parte, para evitar inchaços, com expressão grave no rosto, mas sempre gentil. Ela dizia coisas com os olhos, coisas que eu não consegui compreender, e falava também com as mãos cuja temperatura eu não podia mais sentir.

Já vestida com a roupa trazida pelo pai, fui penteada. Ela arrumou minhas sobrancelhas e deu cor às minhas bochechas e lábios, do jeito modesto que ela sabia que eu gostava. Depois passou base nas minhas unhas e, por último, me perfumou.

Nesse finzinho foi que, quando eu já nem mais esperava, ela chorou. Discreta e silenciosa, ela chorou. Segurou minha mão dentro da sua, abaixou para me beijar a testa e murmurou alguma coisa ao meu ouvido. Ela também falou em perdão.

E eu a perdoei. Por ter sido igualmente medrosa, como eu, e por nunca ter me dito aquelas palavras quando eu estava viva. As mesmas palavras que eu não falei.

Talvez eu tivesse respirado fundo quando me disseram que o tempo estava acabando. Mas já não havia necessidade disso.

Então eu só a olhei, pela última vez, porque ela não iria ao meu funeral e enterro. Isso não, ela tinha decidido.

E o que eu tenho a dizer sobre esse amor que já não se sentia como antes e do qual eu também me despedia, é que se eu tivesse estado lá de verdade e pudesse ter sido ouvida e sentida, eu teria dito a ela que a tinha amado mais do que a mim mesma. E talvez eu pedisse, muito tímida como eu fui quando viva, que ela me guardasse bem. E revelaria que teria sido absurdamente feliz se ela tivesse me amado também.

O fim chegou de surpresa, eu digo. Quando eu achava que seria para sempre, que haveria tempo pra criar coragem e que um dia os sonhos realizados viriam espontaneamente até mim.

Nenhuma dessas coisas era verdade. E eu deveria ter prestado mais atenção.

É isso mesmo. É que a gente presta pouca atenção à vida.

***

Kah Dantas é cearense, professora e escritora. É autora do livro Boca de Cachorro Louco, tem alguns contos publicados e premiados em concursos literários nacionais e apresenta seus textos nos canais intitulados Conta, Kah!, no blog Orgasmo Santo e aqui no Leituras da Bel.
Contato
Instagram: @contakah
Tumblr: https://contakah.tumblr.com/
Blog: Orgasmo Santo


Bruno Marafigo
é um ilustrador e quadrinista curitibano.
Contato: brunomarafigo@hotmail.com
Instagram: brunomarafigoarte

Recomendado para você