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Um artista do mundo flutuante e a trama poética de Kazuo Ishiguro

Acho difícil que você, leitor, ainda não tenha ouvido falar sobre esse escritor de origem japonesa e nome difícil de pronunciar: Kazuo Ishiguro. Vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 2017, o autor nascido em Nagasaki, em 1954, é uma das vozes mais lúcidas e influentes da literatura atual. Não sei se pelo furor da premiação recebida ou pelo potencial literário inegável, os livros de Kazuo se tornaram verdadeiros fenômenos de vendas. Todos querem entender quem é esse escritor de nome difícil e texto sublime. No Brasil, ele é publicado pela Companhia das Letras e seu lançamento mais recente é Um Artista do Mundo Flutuante – livro que aborda a trajetória de um pintor, Masuji Ono, precisando lidar com as consequências do pós-guerra.

Masuji é um artista por excelência. Encontra em seus quadros e em suas artes todas as fórmulas para conseguir tirar os pés do mundo. É interessante como ele narra seus primeiros contatos com a arte e como foi capaz de enfrentar a família para – diferente das expectativas de todos – não seguir a carreira nos negócios e se dedicar a arte. É uma decisão complicada para jovens da atualidade, então, a carga dramática é redobrada para o jovem Masuji. Ele desenvolve sua arte em ateliês e nas universidades. Torna-se um professor respeitado e seu nome é capaz de abrir portas e conferir oportunidades para aqueles que a ele recorrem. O livro tem uma base no acreditar: nós acreditamos nas pessoas? Nós acreditamos nos talentos?

Kazuo Ishiguro, o autor

Mas chega a guerra e, claro, Masuji Ono é afetado por ela. O pintor, já aposentado, precisa lidar com as pequenas decadências que estão em seu entorno. Ele não narra com desespero, mas, sim, com saudade. E talvez por esse motivo o texto fique tão poderoso. É uma saudade dolorida de algo que jamais vai voltar, uma saudade estampada nas ruínas que assolam os territórios físicos. O pintor aposentado transita entre todos eles, relembra, relança olhares.

Mas ele também vive seus dramas particulares. Pai de duas filhas, ele fica confuso com os novos hábitos dos jovens e, em especial, com a dinâmica de criação de seu primeiro neto. A filha mais nova, inclusive, teve as negociações de casamento interrompidas sem uma explicação muito clara. E, ao longo do romance, Masuji Ono tenta entender quais motivos levaram a abrupta interrupção. Casamento é uma instituição muito séria no Japão, principalmente considerando a época na qual os fatos do livro acontecem. E o pintor aposentado é consumido pela grande dúvida referente ao falido processo de casamento.

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Ao pé do ouvido: Baladas para Leitores e Kazuo Ishiguro

Kazuo Ishiguro

O que mais me impressiona na narrativa construída por Kazuo Ishiguro não é a sucessão de fatos, o próximo lance que vai acontecer ou um desfecho qualquer. O autor impressiona por um texto poderoso demais, certo demais, perfeito demais. As lembranças narradas por ele, que nas mãos de outros autores poderiam se tornar cansativas e enfadonhas, são a parte mais encantadora do texto. O autor consegue envolver o leitor de forma sublime.

Outros livros de Kazuo Ishiguro são Não Me Abandone Jamais, Os Vestígios do Dia, O Gigante Enterrado, Quando Éramos Órfãos, Os Inconsolados.

Serviço
Um Artista do Mundo Flutuante
Autor: Kazuo Ishiguro
Tradução: José Rubens Siqueira
Editora: Companhia das Letras
Preço: R$ 49,90

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