Leituras da Bel

[playing with lights] Leia o texto “louça suja e imundice”, da escritora Kami Girão

Louça suja e imundice

[playing with lights] Foto de Kamile Girão

Por Kami Girão*

dia desses, como em tantas outras manhãs, a louça amanheceu imunda. panelas com crosta pesada de creme de leite e acúmulo de queijo derretido. o cheiro estava um terror, ficou mais forte ainda após uma noite ao relento. Diego, obviamente, ficou furioso comigo (em tese, era a minha vez de lavar a louça). soltou a clássica piadinha: “mais uma vez, tudo para mim!”.

não gosto de cuidados com a casa, principalmente com lavar a louça. coloquei água com sabão dentro da panela e fui lavar os miúdos, deixando que a água ensaboada deles corresse para a dita sujeita à base de leite. faço isso para que a oleosidade saia mais rapidamente, facilitando meu processo na hora de passar a esponja – o que reduz meu tempo pregada ao pé da pia.

o fato é que, na noite passada, Beth e Lucas vieram para cá, e não há nada (além de assistir a vídeos no Youtube) que Lucas goste mais do que cozinhar. por um tempo, ele sonhou em ser chef e trabalhar diariamente com isso, mas viveu experiências que o desestimularam a seguir adiante com seu projeto. virou, então, apenas um hobby esporádico. ele verdadeiramente aprecia cozinhar e fica chateado se, ao chegar aqui, perguntarmos se ele não está a fim de comer algo já pronto. como não sou besta e dou valor ao macarrão ao creme de queijo que Lucas faz, sempre topo – principalmente, se for acompanhado de uma coca saída diretamente do Frozen. fica louça para lavar no dia seguinte, sim, mas vamos dormir com a barriga satisfeita.

Lucas chegou aqui em casa por causa da Beth. Beth chegou na minha vida há quase vinte anos – é uma das minhas melhores amigas e foi a primeira pessoa com quem pude dizer que mantinha uma amizade verdadeira. no meio do caminho, nos distanciamos. nossa adolescência correu de forma diferente – ela indo a shows de bandas indies e com um repertório de músicas emo que eu não gostava muito; eu, enfurnada em eventos de anime e preocupada em fazer novos cosplays todo ano. até as pessoas com quem convivíamos não tinham gostos em comum, e fazer contato entre esses dois universos chegava a ser desconfortável. mas Beth esteve ao meu lado num dos piores momentos da minha vida e não saiu mais do lugar que sempre foi seu. voltou a frequentar a minha casa com a mesma frequência que sua mãe a deixava no meu apartamento do Montese quando éramos crianças.

estivemos juntas em boa parte dos momentos mais espinhosos que vivemos. confidenciamos segredos, sonhos, chateações. comemos ovo de páscoa da Hello Kitty dentro de um carro, ouvindo músicas da adolescência, enquanto ela vinha me deixar em casa. mandamos publicações sobre Sailor Moon uma para a outra (só nós sabemos o que o desenho significa para a nossa vida e, consequentemente, para a nossa amizade). se ela está fora de casa, me manda mensagem para saber onde estou – dependendo da minha resposta, damos um jeito para nos encontrar. ela vem na minha casa para pintar móveis que quero vender, ou vem cuidar de mim quando estou doente e Diego não está. ou nos juntamos para filosofar e discutir sobre a vida, o universo e tudo mais.

Lucas foi a adição que ela trouxe quando voltou para mim. nos demos bem naturalmente, logo de primeira, e sei que, hoje, tenho nele um amigo verdadeiro. ele quase foi meu padrinho de formatura, a ponto de ter ido com terno para a colação caso qualquer coisa desse errado – e me arrependo que não tenha acontecido assim. confio em Lucas a ponto de entregar minha cozinha, sem reservas, para ele, mesmo que haja um pote de sal quebrado no meio do processo. não importa. potes de vidro a gente repõe, tem sempre um novo no mercado. e é através da comida, do macarrão ao molho de queijo, que ele retribui o carinho que sente por mim e por Diego. é a forma que sabemos que somos igualmente importantes.

as noites em que os dois estão aqui em casa, sentados na varanda e conversando bobagem sobre memes, seriados, ou mesmo sobre a vida, são as que me deixam feliz. são as que me mostram que as linhas cruzadas quase vinte anos atrás fizeram um ponto certo ao final, ainda que pontos tortos tenham surgido no meio do bordado. e pensar assim faz que lavar a louça do dia seguinte, cheia de óleo e crosta pregada na panela, não seja tão dolorido.

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Kami Girão

Nasceu em Fortaleza, Ceará. É designer gráfico, revisora, tripulante do CosmoNerd e pau para toda obra. Eterna estudante, mahou shoujo, escritora e, às vezes, tira tarô. Gosta de perambular por aí com uma câmera analógica de brinquedo que custou menos de trinta reais num site chinês. Pode chamá-la para papear sobre Boku no Hero, e vocês serão melhores amigos para sempre.

 

 

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