Leituras da Bel

“Você começa a escrever e não sabe onde vai parar”, diz a escritora Nina Rizzi

Por Bruna Forte*

Na obra O prazer do texto (1973), o filósofo francês Roland Barthes afirma que “o prazer do texto não é forçosamente do tipo triunfante, heróico, musculoso. Não tem necessidade de se arquear. Meu prazer pode muito bem assumir a forma de uma deriva”. Cada escritor experimenta um processo singular de deriva: ora isola-se para escrever, ora concilia os rascunhos com o cotidiano atribulado, os filhos, as contas. Na noite da sexta-feira, 5 julho, as escritoras Nina Rizzi e Tércia Montenegro compartilharam seus processo literários na conferência “Literatura e Filosofia em debate”, atividade do projeto Letras&Livros. O evento contou com a mediação da jornalista e organizadora do Blog Leituras da Bel, do O POVO, Isabel Costa.

Isabel Costa, Tércia Montenegro e Nina Rizzi durante o evento

Sobre escrever

“Você começa a escrever e não sabe onde vai parar. Os textos são independentes, a literatura é louca”, ri-se Nina. Em seus processo, a historiadora, editora, poeta e tradutora busca exercícios para não deixar a escrita morrer. “Depois, deixo o texto descansar”, continua. Autora de Turismo para cegos (2015), Tércia Montenegro mergulha no cotidiano para criar suas obras: “Fui voluntária do Instituto dos Cegos durante dois anos antes de escrever o livro. Como seria a vida se eu fosse cega?”, partilhou a provocação. Ao pensar a vida urbana, buscou outros sentidos aguçados. “Os cheiros da França são diferentes dos cheiros do Ceará?”. Nesse movimento de pesquisa, nasceu a protagonista Laila — “tão independente e autônoma que incomoda”.

Além do debate sobre Literatura e Filosofia, o Letras&Livros contou com o lançamento do livro O Olho de Lilith — uma coletânea de poesia publicada pelo Selo Ferina e composta apenas por autoras cearenses: Anna K Lima, Argentinna Castro, Ayla Andrade, Bianca Ribeiro, Jesuana Sampaio, Mika Andrade, Nádia Camuça, Nina Rizzi, Sara Síntique, Suellen Lima e Vitória Régia ; e também com o lançamento oficial do podcast Antologia, um dos braços do Letras&Livros já disponível nas principais plataformas de streaming. Entre os presentes, escritores como Antônio LaCarne e a curadora de arte e presidente do Instituto Sérvulo Esmeraldo, Dodora Guimarães.

O POVO – Qual é a importância de estabelecer uma relação entre literatura e filosofia?

Tércia Montenegro: É enorme, porque a prática das escritas literária e filosófica propõe a reflexão, esse é o grande ponto de encontro. Uma história, um poema que você escreve tem por baixo camadas de pensamentos e de questões existenciais que, às vezes, não são flagrantes — mas estão lá de maneira sutil. Às vezes, a gente também encontra em alguns filósofos uma prosa muito poética, como Merleau-Ponty. É um diálogo muito produtivo, que eu estimo muito porque sempre pensei na literatura como um gesto filosófico.

O POVO: Qual é, portanto, o papel da literatura na aproximação e popularização da filosofia?

Nina Rizzi – A literatura — aliás, as artes no geral — já são maravilhosas e não precisam aproximar a Matemática, a Filosofia ou qualquer outra coisa. Mas ela faz isso, mesmo sem querer, por ser algo que nos toca no íntimo e de um modo sensível. A gente pode trazer esses temas filosóficos e éticos; valores e discussões; e até mesmo a Matemática e essas questões serão facilmente mais assimiladas e discutíveis do que se a gente trabalhar com dados e tabelas porque vai tocar no sensível. A assimilação de fácil é mais perene, mais gostosa. Eu vejo poesia como um modo de pensamento — não é somente juntar bibelôs na estante, é um modo filosófico também.

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Bruna Forte é repórter do O POVO e mestre em Comunicação pela Universidade Federal do Ceará (UFC)

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