Leituras da Bel

Leia “você sente fome”, texto de Gisela Gold para o Leituras da Bel

Por Gisela Gold*

Ilustração: Jéssica Gabrielle Lima

Você sente fome. Eu compro leite de caixinha. Eu não costumo comprar leite de caixinha. Você não está mais aqui . Você já voltou. Eu que não compro leite de caixinha, compro leite de caixinha. O mesmo leite que fiz pra você. Leite com Nescau. O mesmo leite que você pediu para colocar mais uma colher inteira de Nescau. O mesmo leite que sua mãe te deu quando menina. Qualquer menina quer leite. Qualquer menino também. Quem acha que é menina e não menino também quer leite. Quem não acha também. Você quer leite. Diz ter fome.Sua mãe disse “primeiro o prazer, depois o dever”. Deve ser por isso que mesmo que não tenha acabado um texto, você pára porque tem fome. A sua fome só começa no leite. A fome de um povo que apesar de ter mamado no bico do seio não tem água e muitas vezes mistura farinha no feijão para a sustância das pernas que precisam seguir. Essa sua fome que começa no leite é a mesma que te leva a sonhar sem limite. O seu leite sou eu que ponho agora. Mas você me pegou pelo sonho. O sonho de quem começou bebendo leite e quis beber mais do mundo. “porque eu não posso sonhar com meus cachorros aqui, envelhecendo contigo, quem disse que não posso?” Ouvi isso de você entre um copo de leite com Nescau e outro e nem sei onde deixei todas as toxinas , as culpas, as mágoas, as raivas que eu vinha bebendo no leite. Seu sonho abriu espaço pra vida nova me ocupar. Acho que quero um Nescau igual ao seu.

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Gisela Gold

40 na carteira. Às vezes 8, outras 80. É boa de briga. Ama divulgar gente boa e projeto bom, olhar e rascunhar crônicas em guardanapo de bar. É uma viciada em Mate Leão e informalidade, que flertou com a Psicanálise, o que abriu seu olhar para receber a diferença. Cometeu um livro de nome “Óbvio”, em 2001, e “Roupa de Poema” em parceria com um amigo, em 2010. “Alguém”, editado pela Quintal Edições, em 2019, a lança novamente ao mundo, aos vários mundos onde há a certeza: precisa escrever para não enlouquecer.

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