Leituras da Bel

Escritora e criadora da plataforma Bamboleio, Padmini lança Sonhe-me na Bienal do Livro

A crença da Padmini, escritora capixaba e especialista em literatura infantil, a levou a criar uma plataforma de streaming para que famílias inteiras possam ter contato com livros e ferramentas literárias. Chamado de Bamboleio, o programa interativo oferece leituras, exercícios e materiais específicos que facilitam a comunicação entre adultos e crianças. “Podemos nos encantar a vida inteira. Como o encantamento é a raiz mais forte que sustenta a leitura literária, seu incentivo e sua descoberta podem durar a vida inteira também. Nunca é tarde para incentivar a leitura”, explica. Padmini é graduada Letras e fez pós-graduação em Literatura Infantojuvenil na Universidade Federal Fluminense (UFF).

Mas é de suas vivências como leitora e de seu encantamento pelas histórias infantis que ela tira o combustível para o trabalho. A escritora desembarca em Fortaleza para lançar sua terceira obra, Sonhe-me, durante a Bienal do Livro do Ceará. A publicação é da Editora Dummar. De sua autoria há também as obras Fitá (Editora Dummar, Editora Sextante) e Senhora Incerteza (Semente Editorial).

Padmini 🙂

Leituras da Bel – Como escrever livros para crianças que consigam desafiar o pequeno leitor?

Padmini – Acho que não existe uma receita para isso. É preciso antes de mais nada escrever de um lugar sincero dentro de você. Acredito que a infância é atemporal, que a infância é um modo de existir e perceber o mundo disponível para qualquer um, as crianças só tem mais facilidade de alcançá-lo. Com essa conexão, vamos perceber que a infância é rica, profunda, inteligente, sonhadora, perspicaz, única, singular. Se escrevemos deste lugar e desta percepção, pode ser mais fácil desafiar o pequeno leitor. Agora, se escrevemos de forma vertical, no modelo em que um adulto que supostamente detém o saber tenta ensinar algo à criança, que “sabe menos”, então não vamos desafiá-la. É preciso até mesmo nos colocar em posição de aprendiz perante a infância, se quisermos encontrar a nossa própria infância e quem sabe surpreender as crianças.

Leituras da Bel – Muitas pessoas consideram a literatura infantil como uma produção de menor valor. Isso é um mito ou uma verdade?

Padmini – É totalmente mito. Pelo contrário, a literatura para a infância tem ainda o mesmo desafio dos poemas: dizer muito com pouco. Ser sucinto pode ser tão desafiador quanto escrever muitas e muitas páginas. Além disso, a literatura infantil também é chamada de literatura ilustrada, justamente porque defende-se que seu público-alvo não são só as crianças. Quando usamos esse termo – ilustrada – lembramos também que esse gênero é composto não só de linguagem verbal, mas também visual e gráfica. É a costura do diálogo entre essas linguagens que faz um livro para a criança ser literatura, uma produção artística. E tal intercâmbio de linguagens é algo bastante rebuscado.

Padmini

Leituras da Bel – Família e escola podem trabalhar juntos na formação de jovens leitores?

Padmini – Podem e devem! A família é muito importante, mas muitas vezes essa “função” acaba ficando só com a escola, o que não é bom tão assim, porque é justamente em casa que as crianças podem ler junto com o afeto e presença de suas mães e pais. O afeto é, no fundo, o maior formador de leitor. A criança anseia pela voz, o carinho e a presença do adulto com quem compartilha a leitura, e dessa forma o vínculo com a leitura vai nascendo. A leitura é um espaço de liberdade para nossa subjetividade, não há ninguém nos controlando, podemos imaginar livremente, interpretar livremente. A escola, por sua vez, cumpre um papel de nos ferramentar para ampliar nossas capacidades leitoras, e deve sempre equilibrar esse seu papel didático com o de também permitir a leitura como afeto e liberdade.

Leituras da Bel – Qual foi o percurso de criação do Bamboleio?

Padmini – O Bamboleio nasceu do meu amor pela literatura infantil. Eu fazia pós-graduação em Literatura Infantojuvenil pela UFF e não cabia em mim de tanto encantamento. Então resolvi criar um blog para falar das minhas descobertas. Nasceu, então, o blog Bamboleio há três anos e meio. Nesse caminho, encontrei meu sócio, o Victor Mello, e ele também estava em busca de um trabalho com propósito e significado. Fizemos um processo de consultoria, e entrevistamos muitas mães, até perceber o que chamamos de “dor do acesso”: havia muitas crianças sedentas por histórias, muitas famílias interessadas em livros, uma produção enorme, e pouco acesso a essa produção. Seja por falta de hábito, falta de conhecimento ou de dinheiro, muitas pessoas não têm acesso aos livros. O modelo digital foi a solução a que chegamos, pois permite aos livros alcançar muitos lugares (lugares até que não têm livraria, sequer biblioteca), e por um preço acessível. O modelo de acesso via streaming por meio de assinatura mensal é uma tendência em todo o mundo, então resolvemos criar uma “Netflix de livros infantis”, só que especializado, com curadoria e material de apoio para a mediação de leitura. A construção do modelo de negócios e do aplicativo durou dois anos. Lançamos, finalmente, para Android em dezembro de 2018 e para iOs em abril de 2019.

Leituras da Bel – Quais os caminhos para utilizar tecnologia na formação de leitores?

Padmini – Costumo dizer que a tecnologia pode ajudar de três maneiras diferentes. A primeira é por meio do fomento digital, isto é, quando usamos as ferramentas digitais para ajudar os livros a chegarem aos leitores (redes sociais, comunidades, plataformas de conhecimento, formação, e até estudo de algoritmos). A segunda é por meio da literatura digital, isto é, de livros pensados para este formato e que usam a favor da leitura recursos que atraem as crianças, como a interatividade. E a terceira por meio de novas formas de distribuição e acesso, como é o caso do Bamboleio, que une em um só lugar muitos livros de qualidade, e permite aos livros chegarem a muito mais pessoas e lugares, de forma prática, fácil e barata.

Serviço
Lançamento de Sonhe-me
Com Padmini e Mateus Rios
Onde: Leitura e Infância – Sala 04
Horário: 18 horas
Quando: sábado, 17 de agosto
Venda do livro na Casa Vida&Arte

XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará
Quando: de 16 a 25 de agosto
Onde: Centro de Eventos do Ceará (avenida Washington Soares, 999 – Edson Queiroz)
Entrada gratuita

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