Leituras da Bel

[playing with lights] Leia o texto “canteiro”, da escritora Kami Girão

[playing with lights] – “canteiro”

Foto de Kami Girão

 

Por Kami Girão*

Já faz quase um ano, ou pouco mais que isso, que bati essa foto. Me lembro porque era primavera e o canteiro que ilustra a imagem estava florido. A foto foi tirada dentro de ônibus, no sinal vermelho. Foi nesse trajeto, também, que reparei pela primeira vez nas florzinhas que cortam os lados da avenida no trecho Treze de Maio/Pontes Vieira. E eu ficava admirando, perdida em música e pensamentos, o colorido das plantinhas.

Não há local em que eu entre mais dentro de mim do que em um ônibus. Tirando o desconforto de uma lotação ou de um dia quente, eu gosto do movimento do percurso. Gosto de reparar nos arredores, nas mensagens nem sempre tão polidas rabiscadas nos bancos dos ônibus, nas pessoas que compartilham a viagem comigo. E viajo dentro de mim, criando multiversos em que consigo encontrar a resposta perfeita para aquela discussão que não acabou bem, ou me enxergando como uma atriz de musical, dançando ao melhor estilo La La Land enquanto canto pela rua. Alguns dos meus sonhos mais bonitos surgem em uma viagem no 073 ou no 075.

Minha amiga Rosana estuda esse microcosmo que existe dentro de uma condução. Tive, e estou tendo, a oportunidade de acompanhar o andamento da sua pesquisa e vi que vários estudiosos consideram o ônibus como um “não-lugar” porque, no fim, ele nunca é o destino para nada. Mas, como bem salienta a Rosana, há aqueles que vão na contramão do que dizem os pesquisadores. Já conhecemos bem o discurso de quem vende balas para tirar a renda do mês e faz da Mercedes-Benz o seu escritório. Ou aqueles que esticam os minutos de sono tentando se acomodar, nem sempre confortavelmente, perto da janela que tremula durante o trajeto. E há ainda histórias de amores que nunca saem da cabeça dos que se apaixonam platonicamente pelos seus companheiros de viagem. A webcomic da Iara Naika, “48km”, fala exatamente sobre isso, mas o desfecho é um pouco mais satisfatório.

O o ônibus é essa espécie de trem que me conduz, acima de tudo, a mim mesma. E contrariando aqueles que falam que os fones de ouvido distanciam os passageiros, impedindo novas amizades ou desenrolando conversas, acredito que o encontro mais importante já está acontecendo no momento em que viro a catraca e me acomodo. E é nesse destino que sou eu que consigo reparar no que me cerca e enxergar os canteiros que florescem na primavera. Ou no colorido bonito que aparece no céu de Fortaleza no final da tarde. Para essa viagem, na maioria das vezes silenciosa, não há hora para apertar o sinal.

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Kami Girão

Nasceu em Fortaleza, Ceará. É designer gráfico, revisora, tripulante do CosmoNerd e pau para toda obra. Eterna estudante, mahou shoujo, escritora e, às vezes, tira tarô. Gosta de perambular por aí com uma câmera analógica de brinquedo que custou menos de trinta reais num site chinês. Pode chamá-la para papear sobre Boku no Hero, e vocês serão melhores amigos para sempre.

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